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Utilitarismo Ético

Utilitarismo: a ética do resultado em Bentham e Mill

A doutrina utilitarista mede a ação pela consequência, não pelo dever. Entenda o princípio da utilidade, a tradição de Bentham e Mill e a aplicação no Estado brasileiro.

utilitarismojeremy benthamjohn stuart millética do resultadodecreto 9203
1789
Princípios da Moral e da Legislação, de Bentham
1806
ano de nascimento de John Stuart Mill
9.203
decreto de governança pública com viés utilitarista
3
tradições éticas que a banca costuma misturar
Publicado em 14 de maio de 2026·Por Tiago Zanolla
Utilitarismo: a ética do resultado em Bentham e Mill

Foto por Chris Lawton no Unsplash

Resumo rápido

ProblemaO candidato confunde utilitarismo com deontologia kantiana. A banca explora exatamente essa fusão indevida entre dever e resultado.
Causa raizFalta clareza sobre o critério de cada tradição. Bentham e Mill avaliam consequências, Kant avalia intenção, Aristóteles avalia caráter.
SoluçãoFixar a fórmula utilitarista: a ação correta é a que produz o maior bem para o maior número. O critério está sempre no resultado mensurado.
ResultadoO concurseiro identifica pegadinhas que trocam dever por consequência e ainda reconhece o traço utilitarista do Decreto 9.203/2017.

O utilitarismo é a ética do resultado, e essa definição precisa entrar na sua cabeça antes de qualquer leitura de doutrina. Diferente da ética do dever de Kant e da ética da virtude de Aristóteles, a tradição utilitarista julga a ação pelo que ela produz no mundo. Não importa a intenção pura nem o caráter de quem decide: importa a consequência observável.

Quem inaugurou essa visão foi Jeremy Bentham, no século XVIII, com a obra Princípios da Moral e da Legislação, publicada em 1789. Bentham propôs o chamado princípio da utilidade, segundo o qual a ação correta é aquela capaz de gerar a maior felicidade para o maior número de pessoas envolvidas. A felicidade, nesse marco, equivale ao saldo entre prazer e dor.

John Stuart Mill, no século XIX, refinou a doutrina. Para ele, nem todo prazer tem o mesmo peso, e por isso a poesia vale mais que o vinho. Mill hierarquizou os prazeres, distinguindo os superiores, ligados ao intelecto e à dignidade, dos inferiores, ligados ao corpo. Bentham e Mill, juntos, formam o eixo clássico do utilitarismo moderno.

No Estado brasileiro, o utilitarismo etica resultado aparece com clareza no Decreto 9.203/2017, que disciplina a governança pública. O decreto exige que a administração gere valor público para a sociedade, ou seja, produza resultados mensuráveis que beneficiem o maior número de cidadãos. Cumprir a norma por dever é deontologia. Gerar valor mensurado é utilitarismo aplicado.

A confusão entre essas tradições é o erro mais comum em provas. A banca FGV adora afirmar que a ética utilitarista é a ética do dever, e muitos candidatos marcam como correto. Está errado: a ética do dever é kantiana, e a utilitarista é a ética do resultado, do maior bem para o maior número.

Este post organiza, de forma didática, o utilitarismo etica resultado em quatro pontos: a fórmula central, os dois pais da doutrina, a aplicação no Estado brasileiro e as armadilhas de prova. O objetivo é blindar o candidato contra pegadinhas e oferecer ao leitor curioso uma visão honesta da tradição.

O utilitarismo é a ética do resultado: a ação correta é aquela que produz o maior bem para o maior número, não a que cumpre o dever puro.

Fundamentos

A fórmula central do utilitarismo e seus dois pais

Antes de aplicar o utilitarismo ao serviço público, é preciso dominar a fórmula central da doutrina e conhecer os dois autores que a estruturaram. Bentham fundou o princípio da utilidade, e Mill o sofisticou com a hierarquia dos prazeres. Sem isso, qualquer leitura aplicada fica frágil.

01

Princípio da utilidade

Maior felicidade para o maior número de envolvidos.

02

Critério do resultado

A consequência manda, não a intenção pura.

03

Bentham fundador

Princípios da Moral e da Legislação, 1789.

04

Mill refinador

Hierarquia entre prazeres superiores e inferiores.

1. O princípio da utilidade como bússola

O princípio da utilidade é a coluna vertebral do utilitarismo etica resultado. Segundo Bentham, uma ação é moralmente correta quando aumenta o saldo de felicidade entre os afetados, e incorreta quando diminui esse saldo. A felicidade, nesse contexto, é entendida como prazer e ausência de dor.

Esse princípio rompe com a tradição que olhava apenas para a intenção ou para a virtude de quem agia. O utilitarista pergunta: quem ganha, quem perde, quanto se ganha e quanto se perde? A resposta moral nasce do cálculo das consequências.

Em política pública, isso significa avaliar uma medida pelo impacto sobre o conjunto da população. Uma reforma que beneficia poucos a custa de muitos é, na ótica utilitarista, eticamente questionável. Uma medida que distribui ganhos amplos, ainda que cause pequeno sacrifício a alguns, tende a ser justificada.

Atenção: o utilitarismo não é hedonismo individual. O cálculo é coletivo e exige imparcialidade. Cada pessoa conta como uma, e ninguém conta como mais de uma. Esse rigor distingue a doutrina do simples egoísmo do prazer.

2. O critério é o resultado, não o dever

A grande oposição teórica do utilitarismo é a deontologia de Immanuel Kant. Para Kant, a ação moral é aquela feita por dever, conforme um imperativo categórico universalizável, e a consequência é eticamente irrelevante. Para Bentham e Mill, ocorre exatamente o oposto: o que conta é o resultado.

Essa diferença é decisiva em prova. Quando o enunciado afirma que a ética utilitarista se baseia no cumprimento do dever, o candidato preparado identifica o erro de imediato. A ética do dever é kantiana, e a utilitarista é consequencialista.

Um exemplo ajuda: mentir para salvar uma vida é, para Kant, problemático, porque viola o dever de veracidade. Para o utilitarista, a mentira pode ser correta se produzir mais bem do que mal no conjunto. O critério muda completamente.

O concurseiro precisa fixar três perguntas distintas: Kant pergunta pelo dever, Mill pergunta pelo resultado, Aristóteles pergunta pelo caráter. São três tradições, três critérios, três respostas. Confundi las é erro grosseiro de prova.

3. Jeremy Bentham, o fundador

Jeremy Bentham viveu entre 1748 e 1832 e é considerado o fundador do utilitarismo moderno. Sua obra mais influente, Princípios da Moral e da Legislação, foi publicada em 1789 e tornou se referência obrigatória para qualquer estudo sério da doutrina.

Bentham era um reformador social. Aplicou o princípio da utilidade à legislação penal, ao desenho de prisões, à educação e à administração pública. Para ele, o bom legislador é aquele que calcula o saldo de prazer e dor que cada norma produz na sociedade.

O autor desenvolveu inclusive uma aritmética moral, com critérios como intensidade, duração, certeza e extensão do prazer. Embora hoje essa contabilidade pareça ingênua, ela inaugurou uma forma de pensar política pública por resultado mensurável.

Em concurso, basta lembrar: Bentham é o fundador, a obra é de 1789, e o critério é o saldo coletivo de felicidade. Esse trio costuma resolver questões diretas sobre a origem do utilitarismo.

4. John Stuart Mill, o refinador

John Stuart Mill, nascido em 1806 e falecido em 1873, herdou o utilitarismo de Bentham e o aprofundou. Sua contribuição mais célebre é a hierarquia dos prazeres: nem todo prazer tem o mesmo valor moral, e os prazeres ligados ao intelecto, à arte e à dignidade humana superam os prazeres puramente corporais.

A frase resumo é direta: a poesia vale mais que o vinho. Com isso, Mill respondeu à crítica de que o utilitarismo seria uma doutrina de porcos, voltada apenas ao prazer animal. Para ele, é melhor ser um Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito.

Mill também desenvolveu reflexões fundamentais sobre liberdade individual, na obra Sobre a Liberdade, e sobre democracia representativa. Sua ética se conecta a um liberalismo político que valoriza autonomia e desenvolvimento das capacidades humanas.

Em prova, atenção: quando aparecer hierarquia entre prazeres superiores e inferiores, é Mill. Quando aparecer cálculo aritmético sem hierarquia, é Bentham. Essa distinção interna ajuda a discriminar os dois autores em questões mais finas.

Aplicação

O utilitarismo etica resultado no Estado brasileiro e nas bancas

A doutrina utilitarista não está apenas nos livros. Ela aparece em decretos de governança pública e é constantemente cobrada em provas. Esta seção mostra a aplicação concreta no Decreto 9.203/2017 e as armadilhas mais frequentes das bancas.

01

Decreto 9.203/2017

Governança pública orientada por valor público.

02

Valor público

Resultado mensurado em benefício social.

03

Armadilha FGV

Trocar resultado por dever no enunciado.

04

Três tradições

Kant, Mill e Aristóteles em perguntas distintas.

1. Governança pública e o Decreto 9.203/2017

O Decreto 9.203, de 22 de novembro de 2017, dispõe sobre a política de governança da administração pública federal. Entre seus princípios, destaca se a busca por valor público, o que significa orientar a ação estatal pelos resultados efetivos entregues à sociedade.

Esse foco em valor público tem traço claramente utilitarista. A norma não basta por si mesma: ela precisa gerar benefício mensurável para o conjunto dos cidadãos. Uma política que cumpre formalmente todos os requisitos legais, mas não produz resultado social, é, do ponto de vista da governança, deficiente.

O utilitarismo etica resultado encontra ali um ponto de apoio institucional. Indicadores, metas, avaliação de impacto e prestação de contas são instrumentos para medir o saldo coletivo daquilo que o Estado faz. A lógica é consequencialista, ainda que o decreto não use essa palavra.

Isso não anula a deontologia. O servidor segue tendo deveres formais, prazos, vedações e responsabilidades. O ponto é que a governança contemporânea soma dever com resultado: cumprir norma é deontologia, gerar valor é utilitarismo.

2. Resultado mensurado como critério ético

A mensuração é elemento central do utilitarismo aplicado. Sem medir consequência, não há como afirmar que a ação produziu o maior bem para o maior número. Por isso, a doutrina dialoga tão bem com a administração pública moderna, voltada a indicadores e avaliação.

Um programa social, por exemplo, é eticamente avaliado pelo número de pessoas atendidas, pela melhora de indicadores de saúde, educação ou renda, e pelo custo envolvido. A simples existência da política não basta: o que conta é o efeito real sobre a vida dos beneficiários.

O servidor público que internaliza essa lógica passa a se perguntar, em cada decisão, qual o resultado provável da medida e quem será afetado. Essa pergunta consequencialista convive com perguntas deontológicas sobre legalidade e impessoalidade.

Atenção: o utilitarismo bem entendido não autoriza atropelar direitos fundamentais em nome do bem maior. A doutrina tem limites internos, e a Constituição impõe limites externos. O cálculo de consequências opera dentro do quadro jurídico, não contra ele.

3. A armadilha clássica das bancas

A banca FGV, e outras bancas relevantes, exploram com frequência a confusão entre tradições éticas. A pegadinha mais comum é afirmar que a ética utilitarista é a ética do dever, esperando que o candidato marque como correto.

Está errado. A ética do dever é deontológica e remete a Kant. A ética utilitarista é consequencialista e remete a Bentham e Mill. Quem domina o utilitarismo etica resultado identifica a troca de critério no enunciado e elimina a alternativa.

Outra armadilha frequente é atribuir a Bentham a hierarquia dos prazeres. Essa hierarquia é de Mill, não de Bentham. O fundador trabalhava com aritmética de prazeres, sem distinção qualitativa entre poesia e vinho. Confundir os dois autores também derruba pontos.

Há ainda a tentativa de associar utilitarismo a egoísmo ou hedonismo individual. O utilitarismo é, por definição, imparcial: o saldo é coletivo, e a felicidade de cada pessoa conta igualmente. Quem marca utilitarismo como ética egoísta entrega questão.

4. Três perguntas, três éticas

A forma mais segura de blindar a prova é fixar três perguntas distintas, uma para cada tradição. Kant pergunta: qual é o meu dever? Mill pergunta: qual é o resultado para o maior número? Aristóteles pergunta: que tipo de pessoa estou me tornando ao agir assim?

Cada pergunta abre uma família de respostas e uma lógica argumentativa própria. Deontologia foca no princípio universalizável. Utilitarismo foca no cálculo de consequências. Ética da virtude foca no caráter e no hábito do agente.

O servidor maduro percebe que essas perguntas não são exclusivas entre si. Uma decisão pública pode ser examinada pelos três ângulos, e a melhor escolha costuma ser aquela que sobrevive aos três testes: respeita o dever, produz bom resultado e expressa caráter íntegro.

Em prova objetiva, contudo, a banca exige discriminação clara. Se o enunciado fala em maior bem para o maior número, é utilitarismo. Se fala em dever universal, é Kant. Se fala em caráter, virtude e hábito, é Aristóteles. Três marcadores, três respostas.

Revisão rápida

Antes de marcar a alternativa, responda

Checklist de identificação do utilitarismo

  1. 1O enunciado fala em maior bem para o maior número de pessoas?
  2. 2O critério apresentado é o resultado da ação, e não o dever?
  3. 3Há referência explícita ou implícita a Bentham ou a Mill?
  4. 4A questão associa o utilitarismo ao cumprimento do dever, configurando pegadinha?
  5. 5O contexto envolve valor público, governança ou resultado mensurado pelo Estado?

Kant pergunta pelo dever, Mill pergunta pelo resultado, Aristóteles pergunta pelo caráter. Três perguntas, três éticas.

Síntese final

O utilitarismo como ética madura do resultado

O utilitarismo etica resultado é uma das tradições mais influentes do pensamento moral moderno, e dominá lo é condição básica para qualquer candidato que enfrente prova de ética no serviço público. A fórmula central, o maior bem para o maior número, organiza a doutrina de forma clara e operacional.

Bentham fundou o princípio da utilidade em 1789, e Mill refinou a tradição com a hierarquia dos prazeres no século XIX. Juntos, esses dois autores formam o eixo clássico do utilitarismo, e nenhuma resposta de prova passa sem reconhecer essa dupla.

No Estado brasileiro, o Decreto 9.203/2017 traz traço utilitarista ao exigir valor público e resultado mensurado. Cumprir norma segue sendo deontologia, mas gerar benefício efetivo à sociedade é utilitarismo aplicado à governança contemporânea.

Mais do que decorar autores, o candidato precisa internalizar três perguntas: dever, resultado e caráter. Quem domina essa tríade não cai nas armadilhas das bancas, e ainda ganha um instrumento real para pensar a ética pública para além do dia da prova.

Perguntas frequentes

Dúvidas sobre o tema

O que é utilitarismo em uma frase?+

Utilitarismo é a doutrina ética segundo a qual a ação correta é aquela que produz o maior bem para o maior número de pessoas afetadas. O critério moral está sempre no resultado da ação, e não na intenção pura ou no caráter do agente. É, portanto, uma ética consequencialista.

Qual a diferença entre utilitarismo e ética kantiana?+

A ética kantiana é deontológica e julga a ação pelo cumprimento do dever, conforme um imperativo categórico universalizável. O utilitarismo julga a ação pelo resultado, medido em termos de felicidade coletiva. Kant pergunta pelo dever; Mill, pelo resultado. Confundir as duas tradições é erro clássico em provas de concurso.

Quem são os principais autores do utilitarismo?+

Os dois principais autores são Jeremy Bentham (1748 a 1832), fundador da doutrina, e John Stuart Mill (1806 a 1873), que refinou a teoria com a hierarquia dos prazeres. A obra inaugural é Princípios da Moral e da Legislação, de Bentham, publicada em 1789. Mill publicou Utilitarismo em 1863.

O Decreto 9.203/2017 é utilitarista?+

O Decreto 9.203/2017 traz traço utilitarista ao orientar a governança pública pelo valor público entregue à sociedade. A norma exige resultado mensurado em benefício do conjunto dos cidadãos, lógica afinada com o princípio do maior bem para o maior número. Convive, contudo, com exigências deontológicas de legalidade e impessoalidade.

Como evitar pegadinhas de utilitarismo em prova?+

Fixe três marcadores: maior bem para o maior número indica utilitarismo, dever universal indica Kant, virtude e caráter indicam Aristóteles. Desconfie de enunciados que associem utilitarismo ao cumprimento do dever, pois a banca explora exatamente essa troca de critério. Lembre que Bentham é o fundador e Mill é o autor da hierarquia dos prazeres.

Tiago Zanolla

Tiago Zanolla

Fundador da UFEM Educacional

Professor há mais de 15 anos, com mais de 2.000 aulas produzidas e mais de 2 milhões de alunos impactados. Engenheiro de produção por formação, é autor do livro Ética no Serviço Público: uma visão moderna e referência nacional em ensino jurídico para concursos.