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Segunda Formulação Kant

A segunda formulação de Kant e a corrupção no serviço

Por que a segunda formulação de Kant explica a gravidade ética da corrupção e como a FGV cobra essa aplicação prática em provas de concurso público.

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Publicado em 18 de maio de 2026·Por Tiago Zanolla
A segunda formulação de Kant e a corrupção no serviço

Foto por Ian Noble no Unsplash

Resumo rápido

ProblemaO concurseiro decora apenas a primeira formulação de Kant e ignora a segunda. Quando a banca cobra aplicação prática a casos de corrupção, ele trava.
Causa raizA segunda formulação exige tratar a humanidade sempre como fim, nunca apenas como meio. Quem cobra propina usa o cidadão como instrumento de enriquecimento próprio.
SoluçãoCompreender que o ser humano tem dignidade, não preço. A corrupção não é apenas ilegal, é antiética na raiz porque instrumentaliza pessoas.
ResultadoO candidato que domina a segunda formulação responde questões discursivas e objetivas sobre fundamentação ética da corrupção com profundidade kantiana.

A segunda formulação de Kant é o ponto exato onde a filosofia moral encontra a realidade da Administração Pública brasileira. Quando o servidor cobra propina, ele não apenas viola uma norma jurídica do Decreto 1.171/1994 ou do Código Penal. Ele rompe um princípio ético fundamental que sustenta toda a dignidade do serviço público. E é essa ruptura que as bancas, especialmente a FGV, querem que você saiba identificar.

Em sala de aula, vejo o padrão se repetir. O concurseiro decora a primeira formulação, aquela da máxima universal, e ignora a segunda. Acredita que basta saber que a ação deve poder se tornar lei universal. Mas Kant não parou na primeira formulação por acaso. Ele complementou o imperativo categórico justamente para alcançar casos como a corrupção, onde o problema não é a universalização da máxima, mas o uso instrumental da pessoa.

A segunda formulação de Kant diz o seguinte: aja de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa quanto na pessoa de qualquer outro, sempre como fim e nunca apenas como meio. Essa frase, aparentemente abstrata, contém uma das mais poderosas ferramentas éticas para analisar a conduta do servidor público. Ela distingue o que tem preço, ou seja, pode ser substituído por equivalente, do que tem dignidade, sendo insubstituível.

A FGV pega exatamente esse ponto nas provas. A banca apresenta um caso de corrupção e pede a aplicação da segunda formulação. O candidato que decorou apenas a máxima universal não consegue articular a resposta. Já quem entendeu a segunda formulação responde com clareza: o ser humano não pode ser instrumentalizado em proveito alheio, porque possui dignidade intrínseca.

Neste post, vamos destrinchar a segunda formulação de Kant em três camadas. Primeiro, a frase original e seu significado filosófico. Depois, a distinção crucial entre preço e dignidade. Por fim, a aplicação direta ao fenômeno da corrupção administrativa, mostrando por que ela é considerada antiética em sua raiz, e não apenas ilegal.

O ser humano não tem preço, tem dignidade. Quem cobra propina trata o cidadão como meio e instrumentaliza pessoas como se fossem coisas, violando frontalmente Kant.

Fundamento

A frase original e a distinção entre preço e dignidade

A segunda formulação de Kant precisa ser memorizada na íntegra e compreendida em profundidade. Não basta saber que existe, é preciso entender o que cada termo significa no sistema kantiano e por que essa formulação muda completamente a análise ética da corrupção.

Item 1

A formulação literal

Aja de modo que uses a humanidade sempre como fim, nunca apenas como meio.

Item 2

Dignidade contra preço

O ser humano não é meio, possui dignidade, não preço.

Item 3

Humanidade

Refere-se à racionalidade e autonomia presentes em toda pessoa.

Item 4

Fim em si mesmo

A pessoa vale por si, não por sua utilidade.

1. O texto exato da segunda formulação de Kant

A segunda formulação de Kant aparece na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, obra de 1785. O texto original é o seguinte: aja de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa quanto na pessoa de qualquer outro, sempre simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio. Essa frase precisa ser memorizada literalmente, porque a banca pode cobrar a identificação do trecho.

Observe o termo simultaneamente. Kant não proíbe que uma pessoa seja meio em alguma situação. Quando você contrata um pedreiro, você o usa como meio para construir uma casa. O problema não é o uso como meio, mas o uso apenas como meio, sem reconhecer simultaneamente a dignidade do trabalhador. O servidor que cobra propina não reconhece nada da humanidade do cidadão, usa o outro puramente como instrumento de enriquecimento.

Atenção: a palavra humanidade não significa o conjunto da espécie humana. Para Kant, humanidade é a capacidade racional e autônoma presente em cada pessoa individual. É essa racionalidade que confere dignidade. Por isso, mesmo o servidor corrupto possui dignidade, mas ele a viola quando trata o cidadão como mero objeto.

2. Dignidade não é preço e isso muda tudo

Kant estabelece uma distinção ontológica entre dois tipos de valor. O que tem preço pode ser substituído por equivalente, está no plano das coisas, dos objetos, das mercadorias. O que tem dignidade não admite equivalente, é insubstituível, está no plano das pessoas. Essa distinção fundamenta toda a ética kantiana.

Quando o servidor público aceita propina, ele atribui preço a uma decisão administrativa que deveria estar fundada em critérios impessoais. Pior, ele atribui preço à sua própria função pública e, indiretamente, ao cidadão que depende dessa função. O serviço público, que existe para servir à dignidade do cidadão, vira mercadoria.

Exemplo concreto: um fiscal que libera obra irregular mediante propina trata o cidadão vizinho, que sofrerá as consequências do desabamento, como meio para seu enriquecimento. A vida do vizinho recebe um preço, o valor da propina. Kant chamaria isso de aviltamento da dignidade humana, e essa é exatamente a leitura que a FGV espera em provas discursivas.

3. A relação com o imperativo categórico completo

Kant formulou o imperativo categórico em diferentes versões que se complementam. A primeira é a fórmula da lei universal, que pergunta se a máxima da ação pode ser universalizada sem contradição. A segunda é a fórmula da humanidade como fim em si mesma, que é o nosso foco. Existe ainda a terceira, da autonomia, que une as duas anteriores.

Para o concurso, é essencial compreender que as formulações não são alternativas, são complementares. Cada uma ilumina um aspecto da mesma exigência moral. A primeira testa a forma da máxima, a segunda testa o tratamento devido às pessoas. Um ato pode parecer universalizável e, ainda assim, instrumentalizar alguém.

Por isso a segunda formulação de Kant é tão poderosa para analisar a corrupção. Mesmo que alguém tentasse universalizar a máxima cobrar propina quando ninguém estiver vendo, ainda assim a conduta seria condenada pela segunda formulação, porque trata o cidadão como meio.

4. Por que a FGV cobra justamente a segunda formulação

A FGV tem perfil filosófico nas questões de ética. A banca não se contenta com decoreba do Decreto 1.171, ela quer fundamentação. E a segunda formulação de Kant oferece exatamente o tipo de fundamento ético que distingue o candidato bem preparado.

Em provas recentes, vimos questões pedindo a identificação do princípio kantiano violado em casos de corrupção, tráfico de influência e advocacia administrativa. A resposta correta sempre passa pela instrumentalização do cidadão, pela transformação de pessoas em meios para o enriquecimento do agente público.

Atenção: não confunda a segunda formulação com a regra de ouro de não fazer ao outro o que não quer para si. Kant rejeita a regra de ouro porque ela depende de inclinações subjetivas. A segunda formulação é objetiva e fundada na razão, não no sentimento.

Aplicação

A segunda formulação de Kant aplicada à corrupção administrativa

Quando o servidor cobra propina, recebe vantagem indevida ou usa o cargo para benefício próprio, ele realiza exatamente o que Kant proíbe na segunda formulação. Vamos ver como essa violação ocorre concretamente e por que ela torna a corrupção antiética em raiz, não apenas ilegal.

Item 1

Cidadão como meio

A propina transforma o cidadão em instrumento de enriquecimento.

Item 2

Antiética em raiz

A corrupção é grave não só por ser ilegal, mas por violar a dignidade.

Item 3

Cargo como mercadoria

A função pública recebe preço quando deveria servir à dignidade.

Item 4

Quebra estrutural

A confiança pública se desfaz quando o agente instrumentaliza pessoas.

1. Como a propina viola a segunda formulação

Quem cobra propina trata o cidadão como meio para o próprio enriquecimento. Essa é a aplicação direta e literal da segunda formulação de Kant. O servidor não enxerga no cidadão uma pessoa portadora de dignidade, com direitos a um serviço público impessoal e eficiente. Enxerga uma oportunidade, um recurso, uma fonte de renda extra.

Considere o caso clássico. Um servidor responsável por liberar alvarás cobra propina para acelerar o processo. O cidadão que paga é instrumentalizado porque sua necessidade legítima vira moeda de troca. O cidadão que não paga também é instrumentalizado porque sua dignidade é negada quando ele é deixado para trás na fila.

Em ambos os casos, o servidor usa pessoas como meios. Kant é frontalmente violado, e a violação não é circunstancial, é estrutural. Por isso a corrupção é considerada um dos atos mais graves contra a ética pública, e o Decreto 1.171 a coloca no centro das vedações ao servidor.

2. Por que a corrupção é antiética em raiz

A corrupção não é só ilegal, é antiética em raiz. Essa frase precisa ser compreendida. A ilegalidade é a contrariedade à norma posta, ao texto da lei. A antieticidade em raiz é a contrariedade ao próprio fundamento da convivência humana, à dignidade que sustenta toda norma.

Kant nos ajuda a ver isso. Mesmo que não houvesse lei expressa proibindo a propina, ela continuaria sendo antiética, porque viola a fórmula da humanidade. A ilegalidade vem depois, é consequência do reconhecimento prévio dessa antieticidade radical. Por isso, na ética pública, a corrupção é tratada como falta gravíssima, capaz de gerar demissão a bem do serviço público.

Exemplo: o servidor que recebe presente caro de fornecedor pode argumentar que não há lei explícita proibindo presente daquele valor exato. Mas a segunda formulação de Kant já condena a conduta, porque o fornecedor está sendo aceito como meio para futura vantagem, e o cidadão usuário do serviço está sendo instrumentalizado como fonte de recurso público desviado.

3. A função pública como serviço à dignidade

A Constituição de 1988 e o Decreto 1.171/1994 partem de uma premissa kantiana. A função pública existe para servir ao cidadão como fim, não como meio. O servidor é instrumento do interesse público, e o cidadão é o destinatário da dignidade que o serviço deve proteger e promover.

Quando essa relação se inverte, quando o cidadão vira meio e o servidor vira fim, todo o sistema entra em colapso ético. Não importa se o ato corrupto é descoberto ou não. A violação já ocorreu no momento em que o servidor decidiu usar o cargo para si.

Por isso o Código de Ética profissional do servidor fala em decoro, dignidade e zelo. Esses termos não são ornamentais, são a tradução administrativa da segunda formulação de Kant. Onde há decoro, há reconhecimento do cidadão como fim. Onde há corrupção, há instrumentalização.

4. Como responder uma questão FGV sobre o tema

Quando a FGV apresenta um caso de corrupção e pede análise ética, a estrutura ideal de resposta é a seguinte. Primeiro, identifique a conduta como violação da segunda formulação de Kant. Segundo, explicite que o agente público tratou o cidadão como meio, não como fim. Terceiro, relacione a violação com a dignidade humana e a impessoalidade administrativa.

Atenção ao vocabulário kantiano. Use os termos exatos: humanidade como fim, dignidade contra preço, instrumentalização, máxima da ação. A banca valoriza precisão conceitual e penaliza paráfrases vagas. Decorar a frase original em parte ou todo costuma render pontos extras em discursivas.

Grave a chave para o dia da prova: o cidadão é fim, não meio. Quem usa o cargo para si trata pessoas como coisas. Kant é frontalmente violado. Essas três frases resumem tudo o que você precisa articular para responder qualquer questão sobre a segunda formulação de Kant aplicada à ética pública.

Ação imediata

Antes da prova, responda com sinceridade

Checklist de validação kantiana

  1. 1Você sabe recitar literalmente a segunda formulação de Kant?
  2. 2Você sabe distinguir o que tem preço do que tem dignidade?
  3. 3Você consegue identificar a instrumentalização do cidadão em um caso concreto de corrupção?
  4. 4Você compreende a diferença entre usar como meio e usar apenas como meio?
  5. 5Você sabe articular por que a corrupção é antiética em raiz e não apenas ilegal?

O cidadão é fim, não meio. Quem usa o cargo para si trata pessoas como coisas e viola frontalmente Kant.

Síntese

A ética pública começa onde Kant termina

A segunda formulação de Kant é a chave filosófica para compreender a gravidade da corrupção no serviço público. Não basta saber que cobrar propina é ilegal. É preciso entender por que essa conduta viola o fundamento mesmo da dignidade humana. Quem cobra propina transforma o cidadão em meio para enriquecimento próprio, instrumentaliza pessoas como se fossem coisas, atribui preço ao que tem dignidade.

O concurseiro que domina a segunda formulação de Kant ganha uma vantagem real em provas da FGV e de outras bancas que cobram fundamentação ética. Enquanto a maioria decora apenas a primeira formulação, você terá a ferramenta conceitual para articular respostas profundas em questões discursivas e identificar com precisão a alternativa correta em questões objetivas.

Lembre-se da distinção fundamental. O que tem preço pode ser substituído. O que tem dignidade é insubstituível. O cidadão e o servidor possuem dignidade, e essa dignidade não admite preço, não admite barganha, não admite instrumentalização. Quando essa fronteira é cruzada, há corrupção, e a corrupção é antiética em raiz, não apenas por contrariar a lei, mas por violar o próprio ser humano enquanto fim em si mesmo.

Estudar a segunda formulação de Kant é, no fundo, estudar o motivo profundo pelo qual escolhemos servir ao público. Não é só um ponto de prova. É o coração da ética administrativa brasileira.

Perguntas frequentes

Dúvidas sobre o tema

O que diz exatamente a segunda formulação de Kant?+

A segunda formulação do imperativo categórico diz: aja de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa quanto na pessoa de qualquer outro, sempre simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio. Ela aparece na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, de 1785. A frase precisa ser memorizada na íntegra para concursos.

Qual a diferença entre a primeira e a segunda formulação de Kant?+

A primeira formulação testa se a máxima da ação pode ser universalizada sem contradição. A segunda testa se a ação respeita a humanidade como fim em si mesma. As duas são complementares, não alternativas, e iluminam aspectos diferentes da mesma exigência moral.

Por que a corrupção viola a segunda formulação de Kant?+

Porque quem cobra propina trata o cidadão como meio para o próprio enriquecimento. O servidor instrumentaliza pessoas, transformando dignidade em preço. Por isso a corrupção é antiética em raiz, não apenas ilegal, pois viola o fundamento mesmo do reconhecimento da pessoa como portadora de dignidade.

A FGV costuma cobrar a segunda formulação de Kant?+

Sim, a FGV tem perfil filosófico e cobra com frequência a aplicação da segunda formulação a casos de corrupção, tráfico de influência e advocacia administrativa. O candidato que decorou apenas a máxima universal não consegue responder. É preciso dominar a segunda formulação e seu vocabulário específico.

O que significa dizer que o ser humano tem dignidade e não preço?+

Significa que o ser humano é insubstituível e não pode ser trocado por equivalente. O que tem preço pertence ao plano das coisas, das mercadorias. O que tem dignidade pertence ao plano das pessoas. Essa distinção é o coração da ética kantiana e fundamenta toda a proibição da corrupção.

Tiago Zanolla

Tiago Zanolla

Fundador da UFEM Educacional

Professor há mais de 15 anos, com mais de 2.000 aulas produzidas e mais de 2 milhões de alunos impactados. Engenheiro de produção por formação, é autor do livro Ética no Serviço Público: uma visão moderna e referência nacional em ensino jurídico para concursos.