Série 190 Leis · Nº 061
Lei de Goodhart: quando a meta de horas engana você
Oito horas marcadas no cronômetro, planilha inteira pintada de verde e um desempenho pífio no simulado de domingo. O problema raramente é esforço. É a métrica que você escolheu medir.
O candidato cumpre a meta de horas com disciplina exemplar e mesmo assim erra questões que já estudou três vezes.
A Lei de Goodhart: no instante em que a medida vira meta, ela para de medir o que importa e passa a ser perseguida sozinha.
Medir aquilo que não dá para cumprir sem aprender junto: questões resolvidas e corrigidas, erros reincidentes, revisões entregues no prazo.
A rotina encolhe em horas e cresce em acerto, porque o número perseguido passa a coincidir com o preparo real.
Lei de Goodhart é o nome técnico de um erro que eu vejo em alunos há mais de quinze anos. A pessoa estuda oito horas, pinta a planilha inteira de verde, termina a semana com a sensação de dever cumprido e desaba no simulado de domingo. A conta não fecha.
Quase sempre, quando sento com esse aluno e abro a rotina dele, não encontro preguiça. Encontro disciplina. Disciplina aplicada ao número errado.
A formulação da Lei de Goodhart é simples: quando uma medida vira meta, ela deixa de ser uma boa medida. Isso vale para política monetária e vale para a sua quarta-feira à noite, depois do expediente, com o edital aberto e três horas disponíveis antes do sono vencer.
O detalhe cruel é que ninguém precisa trapacear conscientemente. A Lei de Goodhart não depende de má fé. Ela age pela via mais humana que existe, que é a busca do caminho mais curto até o número que vai ser cobrado de você.
Quem trabalha e estuda sente isso na pele. Com pouco tempo, qualquer métrica mal escolhida vira um atalho, e o atalho entrega o indicador bonito sem entregar a aprovação.
Horas medem presença. Questões resolvidas e corrigidas medem preparo. A Lei de Goodhart entra na sua rotina exatamente no dia em que você confunde as duas coisas e começa a defender o cronômetro em vez do resultado.
Origem e caso real
A Lei de Goodhart nasceu dentro de um banco central
Antes de chegar à planilha de estudos, a ideia passou por economia britânica, pregos soviéticos e um dos maiores escândalos corporativos deste século.
A medida
Um indicador existe para refletir uma realidade difícil de observar diretamente, como preparo, saúde financeira ou produtividade.
A meta
Alguém atrela prêmio, salário ou autoimagem ao indicador. A partir daí ele deixa de ser termômetro e vira alvo.
O atalho
Surge um jeito de levantar o número sem produzir o resultado por trás dele. Esse jeito sempre aparece, e costuma ser legal.
O colapso
A meta é batida com folga e o objetivo original fica para trás, muitas vezes em pior estado do que antes da medição.
1. O economista, o ano e a frase
Charles Goodhart era economista do Banco da Inglaterra quando, em 1975, registrou a observação que leva o seu nome. Ele falava de política monetária: assim que o banco central escolhia um agregado para controlar, aquele agregado passava a se comportar de maneira estranha, porque o mercado inteiro se reorganizava em torno da régua.
A versão popular da frase veio depois, pela antropóloga Marilyn Strathern. Quando uma medida vira meta, ela deixa de ser boa medida.
Repare que não existe nada sobre preguiça nessa formulação. A Lei de Goodhart descreve sistemas, não caráter. É por isso que ela funciona tão bem para explicar estudo: você também é um sistema que responde a incentivo.
2. Os pregos que viraram piada e depois virou manual
O folclore soviético guarda o exemplo mais didático de todos. Quando a fábrica recebia meta de pregos por peso, saíam pregos gigantes, pesadíssimos e inúteis. Quando a meta mudava para quantidade, saíam pregos minúsculos, também inúteis.
Em nenhum dos dois casos o chão de fábrica estava errado. Ele estava certíssimo em relação ao que era cobrado dele, e é assim que a Lei de Goodhart costuma se apresentar.
Guarde esse par, porque ele tem tradução direta para quem estuda. Meta de horas produz sessões longas e rasas. Meta de quantidade de matérias vistas produz passagem superficial por tudo. A Lei de Goodhart entrega exatamente aquilo que você pediu, e não aquilo que você queria.
3. Wells Fargo: 3,5 milhões de contas que ninguém pediu
O caso moderno é maior e mais sério. O Wells Fargo impôs metas agressivas de produtos vendidos por cliente, e os funcionários, espremidos entre a meta e o emprego, abriram cerca de 3,5 milhões de contas e cartões falsos, sem autorização dos correntistas.
O escândalo veio a público em 2016. Custou bilhões em multas, a saída do presidente do banco e uma punição inédita: o Federal Reserve proibiu a instituição de crescer de tamanho.
A métrica foi batida com folga. O objetivo que ela deveria medir, que era relacionamento saudável com o cliente, foi destruído no caminho. Não existe retrato melhor da Lei de Goodhart operando em escala industrial.
4. Por que isso acontece sem ninguém decidir fraudar
Pouca gente no Wells Fargo acordou querendo cometer fraude bancária. A maioria queria manter o emprego, bater a meta do mês e ir para casa. O sistema fez o resto.
É esse o ponto que separa a Lei de Goodhart de um simples alerta moral. Ela não pergunta se você é honesto. Ela pergunta se existe um caminho curto entre você e o número.
Se existir, alguém vai encontrar. E quando o avaliador e o avaliado são a mesma pessoa, como acontece em qualquer rotina de estudo autogerida, o caminho curto é encontrado em questão de dias, quase sempre sem você perceber.
Aplicação no concurso
Onde a Lei de Goodhart mora na rotina de quem estuda
Quatro métricas populares entre concurseiros, o atalho que cada uma abre e o indicador que resolve o problema sem abrir atalho novo.
Horas no cronômetro
Atalho: videoaula em velocidade dobrada com o celular ao lado. O relógio anda, a cabeça não. Troque por questões corrigidas.
Páginas lidas do PDF
Atalho: leitura de rolagem, que atravessa a página sem fixar nada. Troque por tópicos que você consegue explicar em voz alta.
Média nos simulados
Atalho: escolher simulado fácil e evitar a matéria que derruba a média. Troque por desempenho na disciplina de maior peso no edital.
Matérias marcadas como concluídas
Atalho: concluir no papel e nunca mais revisar. Troque por revisões entregues dentro do prazo que você mesmo marcou.
1. O cronômetro é o caso clássico
Estudar oito horas por dia é uma meta nobre e quase sempre uma armadilha. No instante em que o número de horas vira o objetivo da semana, o seu cérebro começa a procurar formas de completar horas com o menor custo possível.
Aí entra a matéria confortável, aquela que você já domina e que escorre fácil. Entra a videoaula em velocidade acelerada, que preenche o bloco sem exigir produção. Entra a leitura passiva no fim da noite, quando qualquer coisa vira ruído.
Oito horas cumpridas. Pouca coisa aprendida. A Lei de Goodhart não precisou de nada além da sua boa vontade e de um cronômetro mal posicionado.
Hora é insumo. Aprendizado é produto. Medir insumo e cobrar produto é a receita da frustração de domingo à noite.
2. O simulado escolhido a dedo para proteger a média
Essa é a versão mais íntima da Lei de Goodhart, e a mais difícil de admitir. O candidato cria uma planilha de desempenho, começa a acompanhar a média e, sem anunciar para ninguém, passa a escolher simulados mais fáceis.
A curva sobe. O gráfico fica bonito. A prova real, que não foi escolhida a dedo, chega com outra cara, e a Lei de Goodhart cobra a diferença de uma vez só.
Quando a sua própria avaliação pode ser escolhida por você, ela deixa de avaliar. É o equivalente doméstico de apagar gabarito, e quase sempre acontece sem nenhuma decisão consciente de fraudar.
3. A métrica que não dá para fraudar sem aprender junto
A saída prática não é abandonar os números. É escolher números resistentes a atalho.
Questões inéditas resolvidas e corrigidas, com o erro anotado e classificado, é um indicador difícil de maquiar: não existe jeito de acertar questão nova de forma consistente sem ter aprendido o conteúdo. Erros reincidentes por tópico é outro, e talvez o melhor de todos, porque pune o autoengano em vez de premiar.
Revisões entregues dentro do prazo também funciona bem, desde que o prazo tenha sido marcado antes e não seja renegociado no dia.
O teste é sempre o mesmo: existe maneira de bater esse número sem ficar mais preparado? Se existir, a Lei de Goodhart vai encontrá-la por você.
4. Como montar a semana sem cair na armadilha
Na prática, eu sugiro inverter a ordem do planejamento. Em vez de abrir a semana decidindo quantas horas vai estudar, abra decidindo quantas questões de cada disciplina vai resolver e corrigir, com peso proporcional ao edital.
As horas passam a ser consequência. Em algumas noites você precisará de duas, em outras de quarenta minutos, e as duas semanas podem ser igualmente boas.
Mantenha o registro de horas se quiser, só não deixe ele no topo da planilha. O que fica no topo vira meta, e o que vira meta atrai o atalho. Essa é a Lei de Goodhart aplicada ao desenho da sua própria rotina de estudo.
Auditoria
Cinco perguntas para auditar a sua métrica
Responda antes de fechar o planejamento da próxima semana. Uma resposta ruim já basta para trocar o indicador.
- Existe algum jeito de eu bater esse número nesta semana sem ficar mais preparado para a prova?
- O indicador que está no topo da minha planilha mede presença ou mede produção?
- Quem escolhe a dificuldade da minha avaliação sou eu, no dia, com a média à vista?
- Se eu mostrasse esse painel para alguém que me conhece bem, essa pessoa acreditaria nele?
- O que a Lei de Goodhart faria com essa meta se eu a perseguisse por três meses seguidos?
A Lei de Goodhart não pergunta se você é honesto. Ela pergunta se existe um caminho curto entre você e o número. Se existir, você vai encontrá-lo.
Síntese
O número nunca foi o objetivo
Charles Goodhart descreveu em 1975 um comportamento de mercado. O Wells Fargo mostrou em 2016, com 3,5 milhões de contas falsas, o tamanho do estrago quando a meta engole o propósito. A versão doméstica disso cabe em uma planilha de estudos e custa anos de preparação.
Medir continua sendo necessário. Quem estuda sem nenhum indicador navega no escuro e confunde esforço com progresso. O que muda, depois de entender a Lei de Goodhart, é a pergunta que você faz antes de adotar qualquer indicador.
Escolha métricas que só sobem quando você aprende de verdade. O resto se ajusta sozinho, inclusive as horas.
Perguntas frequentes
Dúvidas sobre o tema
A Lei de Goodhart significa que eu não devo medir nada no meu estudo?+
Não. Estudar sem indicador nenhum costuma ser pior, porque o candidato passa a confundir cansaço com progresso. O que a Lei de Goodhart recomenda é escolher indicadores que não possam ser batidos por atalho. Medir continua valendo, desde que o número suba junto com o preparo.
Qual métrica eu coloco no lugar das horas de estudo?+
Questões inéditas resolvidas e corrigidas, com os erros anotados por tópico, é o substituto mais direto. Erros reincidentes e revisões entregues no prazo completam bem o painel. As horas continuam sendo úteis como registro, só não devem ocupar o topo da planilha nem servir de meta semanal.
Como aplicar essa ideia na escolha dos meus simulados?+
Tire de você a decisão sobre a dificuldade da prova. Defina com antecedência quais simulados vai fazer e em quais datas, de preferência da própria banca do seu edital. Avaliação que o avaliado escolhe no dia, olhando para a média, deixou de ser avaliação e virou autoelogio em forma de gráfico.
A nota de corte do concurso também sofre com a Lei de Goodhart?+
Sofre, e esse é um bom exercício de leitura de edital. Quando a nota de corte vira o objetivo, o candidato tende a mirar o mínimo histórico e a abandonar disciplinas de peso alto que parecem caras. O alvo correto continua sendo a classificação dentro do número de vagas, que depende de desempenho relativo e não de um número do ano passado.
Tiago Zanolla
Fundador da UFEM Educacional
Professor há mais de 15 anos, com mais de 2.000 aulas produzidas e mais de 2 milhões de alunos impactados. Engenheiro de produção por formação, autor do livro Ética no Serviço Público: uma visão moderna e referência nacional em ensino para concursos. A série 190 Leis publica, de segunda a sexta, uma lei, efeito ou paradoxo que explica como você estuda, decide e trabalha.
Imagem de capa: retrato de Charles Goodhart, Jamesfranklingresham (CC BY-SA 3.0) via Wikimedia Commons.