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Ética do cuidado

Ética do cuidado: Gilligan corrige Kohlberg na prova

Carol Gilligan mostrou que a escala de Kohlberg tinha viés masculino e propôs a ética do cuidado como dimensão complementar à ética da justiça no serviço público.

Carol GilliganKohlbergética da justiçaatendimento humanizadoviés de gênero
1982
ano de publicação de In a Different Voice
2
éticas complementares: justiça e cuidado
10+
anos de incidência da FGV em provas
Publicado em 3 de junho de 2026·Por Tiago Zanolla
Ética do cuidado: Gilligan corrige Kohlberg na prova

Foto por Ari Dinar no Unsplash

Resumo rápido

ProblemaA escala de Kohlberg classificava o raciocínio moral feminino como incompleto. O método tinha viés masculino estrutural.
Causa raizKohlberg construiu sua escala observando apenas meninos. Mulheres raciocinavam por cuidado e relação, e isso não cabia no modelo dele.
SoluçãoGilligan propôs a ética do cuidado, centrada em contexto, responsabilidade e relação. Não substitui, complementa a ética da justiça.
ResultadoAtendimento humanizado no serviço público é ética do cuidado em ato. Princípio universal sem cuidado vira frieza burocrática.

A ética do cuidado nasce como uma das críticas mais sofisticadas ao modelo dominante de desenvolvimento moral. Carol Gilligan, psicóloga norte americana e ex-aluna de Lawrence Kohlberg, publicou em 1982 a obra In a Different Voice e provocou um terremoto no campo. Ela mostrou que a escala usada para medir maturidade moral tinha um problema sério de método. O instrumento que dizia ser universal era, na verdade, masculino.

Kohlberg havia construído seus seis estágios de desenvolvimento moral observando majoritariamente meninos e jovens do sexo masculino. Quando aplicava o teste em mulheres, elas tendiam a raciocinar de outra forma, falando em relações, responsabilidades concretas e impacto sobre pessoas reais. O resultado é que apareciam como moralmente incompletas, presas em estágios inferiores da escala. Gilligan inverteu a leitura. O problema não estava nas mulheres, estava na régua.

A proposta da ética do cuidado é simples e poderosa. Existe uma voz moral diferente, centrada em contexto, vínculo e responsabilidade pelo outro. Essa voz não é inferior à ética da justiça baseada em princípios universais. Ela é complementar. Sem cuidado, princípio vira frieza burocrática. Sem princípio, cuidado vira favoritismo e parcialidade.

Para o servidor público brasileiro, essa discussão não é abstrata. Toda vez que se fala em atendimento humanizado, em escuta qualificada, em acolhimento na saúde e na assistência social, está se aplicando ética do cuidado em ato. A Constituição garante igualdade formal, mas o serviço só se completa quando o agente público enxerga a pessoa concreta diante dele.

Em mais de uma década analisando provas, é possível afirmar que a FGV cobra Gilligan especialmente em concursos voltados para áreas de assistência social, saúde, atendimento e direitos humanos. A banca gosta de pegar o candidato com uma armadilha clássica, afirmar que Gilligan defenderia a superioridade do cuidado sobre a justiça. Isso é falso. Ela defende complementaridade, não hierarquia invertida.

Nesta dica, vamos destrinchar a crítica de Gilligan a Kohlberg, a proposta da ética do cuidado, suas aplicações no serviço público e as armadilhas mais comuns em prova. Ao final, você terá um mapa claro para responder questões sobre o tema sem cair nas pegadinhas das bancas.

A ética do cuidado não compete com a ética da justiça. Ela completa o que princípio universal sozinho não alcança: a pessoa real diante do servidor.

Crítica fundadora

A crítica de Gilligan: o viés masculino na escala moral

Para entender a ética do cuidado, é preciso voltar ao laboratório de Kohlberg. Foi ali, observando o método de perto, que Gilligan percebeu que algo estava torto. A crítica é técnica, mas tem implicações profundas para a forma como pensamos moralidade no serviço público.

Item 1

1982

Publicação de In a Different Voice marca o nascimento da ética do cuidado.

Item 2

Ex-aluna

Gilligan trabalhou com Kohlberg em Harvard antes de romper com o modelo.

Item 3

Amostra

Estudos originais de Kohlberg foram feitos predominantemente com meninos.

Item 4

Viés

Mulheres apareciam em estágios inferiores por raciocinar de outra forma.

1. O contexto da publicação de In a Different Voice

Em 1982, Carol Gilligan lança o livro que mudaria a psicologia moral contemporânea. O título já era um manifesto. In a Different Voice, ou Em uma Voz Diferente, anunciava que havia outro modo de falar sobre moralidade que estava sendo silenciado pela ciência da época. Gilligan não era uma forasteira acadêmica. Ela tinha sido aluna e colaboradora de Lawrence Kohlberg em Harvard, conhecia os instrumentos por dentro.

O livro reúne pesquisas com mulheres em situações morais concretas, como decisões sobre aborto, conflitos familiares e dilemas profissionais. Ao analisar as respostas, Gilligan percebeu um padrão. As mulheres tendiam a raciocinar em rede, considerando vínculos, consequências para pessoas específicas e responsabilidades de longo prazo. Não era falta de capacidade abstrata. Era uma gramática moral distinta.

A repercussão foi imediata e dividiu a comunidade acadêmica. Alguns aplaudiram a coragem de questionar um modelo consolidado. Outros acusaram Gilligan de essencializar diferenças entre homens e mulheres. O debate permanece vivo até hoje, mas o ponto central da crítica metodológica foi amplamente aceito.

2. O viés masculino na escala de Kohlberg

Lawrence Kohlberg construiu sua famosa escala de seis estágios morais baseando-se em estudos longitudinais com meninos americanos. O instrumento padrão era o dilema de Heinz, no qual um homem precisa decidir se rouba um remédio caro para salvar a esposa doente. A resposta considerada mais madura privilegiava princípios universais abstratos como justiça e direito à vida.

Quando aplicava o mesmo teste em mulheres, Kohlberg encontrava respostas diferentes. Muitas mulheres tentavam encontrar saídas alternativas, como conversar com o farmacêutico, pedir empréstimo, mobilizar a comunidade. Esse tipo de raciocínio relacional não se encaixava nos estágios mais altos da escala. As mulheres acabavam classificadas como moralmente menos desenvolvidas que os homens.

Gilligan mostrou que o problema não era cognitivo. Era de método. Atenção ao raciocinar dessa forma, o critério escolhido por Kohlberg já privilegiava um estilo de pensamento específico. Mudar a régua não significa abandonar Kohlberg, significa reconhecer que ele mediu uma dimensão, não toda a moralidade humana.

3. Por que a crítica é metodológica e não ideológica

É importante separar o que Gilligan disse do que dizem em nome dela. A crítica original é técnica. Diz respeito à validade externa de um instrumento de pesquisa quando aplicado a populações diferentes daquela em que foi construído. Esse é um ponto pacífico em metodologia científica.

O que se discute hoje é se as diferenças observadas são inatas, culturais ou ambas. Gilligan, em obras posteriores, deixou claro que não defende uma essência feminina do cuidado. Homens também podem desenvolver a voz do cuidado, e mulheres podem raciocinar perfeitamente em termos de justiça abstrata. A questão é que ambas as vozes existem e merecem reconhecimento moral.

Para a prova, basta entender que a crítica de Gilligan é metodológica e descritiva. Ela não diz que mulheres são moralmente superiores. Ela diz que a escala de Kohlberg não capturava toda a complexidade do desenvolvimento moral humano.

4. Armadilhas de prova sobre a crítica

A FGV gosta de jogar com inversões. A primeira armadilha clássica é afirmar que Gilligan defendia a superioridade da ética do cuidado sobre a ética da justiça. Atenção, isso é falso. Ela defende complementaridade, nunca hierarquia invertida.

A segunda armadilha é dizer que Gilligan rejeitava integralmente o modelo de Kohlberg. Também errado. Ela mantém o reconhecimento do trabalho dele e propõe uma expansão, não uma substituição. A ética da justiça continua válida para muitas situações.

A terceira armadilha confunde Gilligan com posições essencialistas, como se ela dissesse que toda mulher pensa pelo cuidado e todo homem pela justiça. A formulação correta é que existem duas vozes morais e que ambas estão disponíveis para qualquer pessoa, independentemente de gênero. Ler com atenção sempre que aparecer só ou exclusivamente em alternativas sobre Gilligan.

Aplicação prática

A ética do cuidado aplicada ao serviço público

A ética do cuidado deixa de ser teoria abstrata quando o servidor olha para a pessoa diante dele. Atendimento humanizado, escuta qualificada e acolhimento são expressões concretas dessa dimensão moral. Sem ela, o princípio universal vira gélida aplicação de regra.

Item 1

Relação

Cuidado se ancora em vínculos concretos entre pessoas específicas.

Item 2

Contexto

Decisão moral considera a situação real, não apenas a regra abstrata.

Item 3

Responsabilidade

Servidor responde pelo impacto de seus atos sobre o usuário do serviço.

Item 4

Humanização

SUS, SUAS e atendimento ao público se baseiam em ética do cuidado.

1. Os pilares da ética do cuidado

A ética do cuidado tem três pilares articulados. O primeiro é a centralidade da relação. Diferentemente da ética kantiana ou da justiça abstrata, o cuidado parte do reconhecimento de que somos seres interdependentes. Ninguém decide moralmente no vácuo, sempre há vínculos em jogo.

O segundo pilar é o contexto. Enquanto princípios universais buscam regras válidas para qualquer situação, o cuidado pergunta o que essa pessoa específica precisa nesse momento específico. Isso não é relativismo, é sensibilidade situacional. A regra continua importante, mas sua aplicação considera o caso concreto.

O terceiro pilar é a responsabilidade pelo outro. Não basta cumprir o dever formal. É preciso responder pelas consequências do ato sobre quem está envolvido. Esse pilar conecta diretamente com a ideia de accountability no serviço público, especialmente nas áreas em que o servidor lida com pessoas em situação de vulnerabilidade.

2. Atendimento humanizado como ética do cuidado em ato

O atendimento humanizado no serviço público brasileiro é a tradução prática da ética do cuidado. A Política Nacional de Humanização do SUS, por exemplo, parte do reconhecimento de que cumprir protocolo clínico não basta. É preciso acolher, escutar, considerar o histórico e o contexto do usuário.

O mesmo vale para o Sistema Único de Assistência Social. O assistente social que atende uma família em situação de risco não está apenas aplicando lei. Ele está exercendo uma forma de cuidado profissional que envolve vínculo, escuta e responsabilidade. A frieza burocrática nesse contexto não é só desumana, é tecnicamente inadequada.

Em áreas como educação, atendimento ao cidadão e segurança pública, o mesmo princípio se aplica. O servidor que trata o usuário como número, ignorando contexto e história, pode estar cumprindo a regra mas falhando na dimensão ética do cuidado. A FGV explora bastante essa articulação entre humanização e ética profissional.

3. A complementaridade entre justiça e cuidado

O ponto mais importante de toda essa discussão é o seguinte. Ética da justiça e ética do cuidado se completam. Não são adversárias. Não é preciso escolher entre uma e outra. O servidor maduro moralmente integra as duas vozes em sua prática cotidiana.

Princípio universal sem cuidado vira frieza. Imagine um servidor que aplica a regra à risca, sem considerar a situação concreta do cidadão à sua frente. Pode estar formalmente correto, mas eticamente incompleto. A regra existe para servir pessoas, não o contrário.

Por outro lado, cuidado sem princípio vira favoritismo. Imagine um servidor que decide caso a caso conforme sua simpatia pessoal, sem ancoragem em critérios universais. Vai gerar arbitrariedade, desigualdade e captura pelos interesses dos mais próximos. A regra universal protege contra esse tipo de distorção.

A integração das duas dimensões é o que produz prática profissional madura. Para a prova, grave essa chave: complementaridade, nunca oposição.

4. Como a FGV cobra Gilligan em concurso

A banca FGV é especialmente sensível ao tema porque entende que o servidor moderno precisa articular eficiência, legalidade e humanização. Em concursos para áreas de saúde, assistência social, educação e direitos humanos, Gilligan aparece com frequência crescente.

O padrão de questão envolve três tipos de pegadinha. Primeiro, afirmar que a ética do cuidado substitui a ética da justiça. Falso, ela complementa. Segundo, dizer que Gilligan defende superioridade moral feminina. Falso, ela critica o viés metodológico de Kohlberg sem essencializar gênero. Terceiro, sugerir que cuidado significa abandonar regras objetivas. Falso, significa aplicar regras com sensibilidade ao contexto.

Para acertar essas questões, basta gravar a fórmula central. Kohlberg representa a ética da justiça, baseada em princípios universais. Gilligan representa a ética do cuidado, baseada em contexto, relação e responsabilidade. As duas se completam na prática profissional madura. Atendimento humanizado é ética do cuidado em ato.

Ação imediata

Antes da prova de ética, responda

Checklist de validação sobre Gilligan

  1. 1Você sabe explicar por que a escala de Kohlberg tinha viés masculino?
  2. 2Você consegue diferenciar ética da justiça e ética do cuidado sem hierarquizar?
  3. 3Você reconhece atendimento humanizado como aplicação da ética do cuidado?
  4. 4Você identifica a armadilha de questões que afirmam superioridade de uma ética sobre a outra?
  5. 5Você sabe que Gilligan não essencializa gênero, mas reconhece duas vozes morais disponíveis a todos?

Princípio universal sem cuidado vira frieza burocrática. Cuidado sem princípio vira favoritismo.

Síntese

A ética do cuidado como ferramenta de aprovação

A ética do cuidado proposta por Carol Gilligan não é apenas tema de prova. É chave de leitura para entender o serviço público contemporâneo. Ao corrigir o viés masculino da escala de Kohlberg, Gilligan abriu espaço para reconhecer que a moralidade tem mais de uma voz e que a voz do cuidado merece o mesmo respeito teórico que a voz da justiça.

Para o concurseiro, fica a fórmula prática. Kohlberg representa a ética da justiça, ancorada em princípios universais abstratos. Gilligan representa a ética do cuidado, ancorada em contexto, vínculo e responsabilidade pelo outro. As duas se completam, nunca se opõem. Essa complementaridade é o que distingue o servidor profissional maduro do mero aplicador mecânico de regras.

Para o servidor já em exercício, a ética do cuidado é convite à humanização. O atendimento de qualidade no SUS, no SUAS, na educação e em qualquer ponto de contato com o cidadão depende dessa sensibilidade situacional. Cumprir protocolo é o mínimo. Acolher, escutar e responder pelo impacto do ato é o que diferencia o servidor médio do servidor excelente.

Estudar Gilligan a sério é, no fundo, estudar como ser um servidor melhor. A teoria moral mais sofisticada do final do século XX está, na verdade, descrevendo aquilo que todo bom profissional do serviço público já intui. Cuidar de gente exige princípio e exige cuidado, juntos, sempre.

Perguntas frequentes

Dúvidas sobre o tema

Gilligan defendia que a ética do cuidado é superior à ética da justiça?+

Não, essa é uma das principais armadilhas de prova. Gilligan defende complementaridade entre as duas éticas, nunca hierarquia invertida. A ética do cuidado e a ética da justiça são duas vozes morais legítimas que se completam na prática profissional madura. Afirmar superioridade de uma sobre a outra é distorcer a proposta original da autora.

A ética do cuidado significa abandonar regras universais?+

Não. A ética do cuidado propõe que a aplicação de regras considere contexto, vínculo e responsabilidade pelo outro. As regras universais continuam válidas e necessárias para evitar arbitrariedade. O que muda é a forma de aplicar, com sensibilidade situacional. Sem regras universais, o cuidado vira favoritismo. Sem cuidado, as regras viram frieza burocrática.

Como a ética do cuidado se aplica ao atendimento no serviço público?+

O atendimento humanizado é ética do cuidado em ato. Quando o servidor acolhe, escuta e considera o histórico do usuário, está exercendo essa dimensão moral. Políticas como a Humanização do SUS e os princípios do SUAS partem dessa lógica. Cumprir protocolo é o mínimo legal. Articular protocolo com escuta qualificada é a expressão profissional madura da ética do cuidado.

Gilligan defende que mulheres são moralmente superiores aos homens?+

Não, essa leitura distorce a obra de Gilligan. A autora critica o viés metodológico de Kohlberg, que classificava o raciocínio relacional como inferior. Gilligan reconhece duas vozes morais, a da justiça e a do cuidado, disponíveis para qualquer pessoa independentemente de gênero. Homens podem desenvolver a voz do cuidado e mulheres podem raciocinar plenamente pela justiça abstrata.

Em quais concursos a FGV mais cobra a ética do cuidado de Gilligan?+

A FGV cobra Gilligan especialmente em concursos para áreas de assistência social, saúde, educação, atendimento ao cidadão e direitos humanos. Esses são contextos em que o atendimento humanizado é central. O padrão de pegadinha envolve afirmar superioridade do cuidado sobre a justiça, essencializar gênero ou sugerir que cuidado dispensa regras objetivas. Em todos os casos, a resposta correta aponta complementaridade entre as éticas.

Tiago Zanolla

Tiago Zanolla

Fundador da UFEM Educacional

Professor há mais de 15 anos, com mais de 2.000 aulas produzidas e mais de 2 milhões de alunos impactados. Engenheiro de produção por formação, é autor do livro Ética no Serviço Público: uma visão moderna e referência nacional em ensino jurídico para concursos.