Akrasia: a fraqueza da vontade que derruba o servidor
Por que conhecer o Decreto 1.171 nao basta para agir bem? A resposta esta em akrasia, conceito aristotelico de fraqueza da vontade cobrado direto pela banca FGV em etica.
Foto por Unma Desai no Unsplash
Resumo rápido
Akrasia, a fraqueza da vontade, e um dos conceitos mais elegantes da filosofia moral e tambem um dos mais cobrados pela banca FGV nas provas de etica no servico publico. A palavra grega designa o fenomeno em que alguem sabe o que e certo, conhece a norma, reconhece o dever, e ainda assim age contra ele. Nao por ignorancia, nao por engano, mas por falta de dominio sobre os proprios apetites.
Em mais de dez anos acompanhando concurseiros, vejo o mesmo padrao se repetir. O aluno decora o Decreto 1.171, recita os deveres do artigo segundo, identifica as vedacoes do artigo terceiro e, na vida pratica do servico, escorrega justamente onde sabia que nao podia escorregar. Esse descompasso entre o saber e o agir tem nome filosofico. Chama se akrasia.
Aristoteles desenvolveu o conceito de akrasia justamente para refutar a tese socratica de que ninguem faz o mal sabendo que e mal. Para Socrates, errar moralmente seria sempre uma forma de ignorancia. Para Aristoteles, ao contrario, a experiencia humana mostra que e perfeitamente possivel conhecer o bem, querer o bem em tese, e ainda assim sucumbir ao desejo imediato. A virtude, portanto, nao e so questao de informacao, e questao de habito e de carater.
Quando a banca cobra etica filosofica, esse e o terreno fertil das pegadinhas. Trocam o nome do filosofo, atribuem a Aristoteles tese de Socrates, ou exigem que o candidato identifique no enunciado o conceito de akrasia sem que ele apareca nomeado. Quem domina a distincao acerta tudo. Quem confunde, perde pontos preciosos.
Neste post, vamos destrinchar o conceito de akrasia, sua aplicacao direta ao servidor publico que viola o Decreto 1.171 sabendo que viola, e o modo como Aristoteles redesenha o problema da virtude. A ideia e que voce saia daqui com a chave conceitual gravada e com capacidade real de aplicar isso tanto na prova quanto na carreira.
Akrasia nao e ignorancia. E saber o que e certo, reconhecer o dever e mesmo assim agir contra ele por fraqueza da vontade.
O que e akrasia e por que ela refuta Socrates
Para entender por que a banca cobra akrasia, e preciso recuar ate o embate entre Socrates e Aristoteles. Um defendia que o vicio e sempre ignorancia. O outro olhou para a vida real e viu que nao e bem assim.
Etimologia
Akrasia vem do grego e significa literalmente falta de poder sobre si mesmo.
Tese socratica
Para Socrates, ninguem erra moralmente sabendo que erra. Todo vicio seria ignorancia.
Resposta aristotelica
Aristoteles refuta: a pessoa sabe, e mesmo assim sucumbe ao apetite imediato.
Consequencia
A virtude nao e so saber, e habito formado pelo treino do carater.
1. Akrasia como fraqueza da vontade
A akrasia, fraqueza da vontade, e o conceito que Aristoteles utiliza para descrever o fenomeno moral em que o agente conhece o bem, deseja o bem em principio, e ainda assim age contra esse conhecimento. A traducao mais comum em portugues e justamente fraqueza de vontade ou incontinencia moral, ambas tentando capturar a ideia grega de ausencia de dominio sobre si.
Pense num exemplo banal. Voce sabe que precisa estudar a Lei 8.112 hoje. Voce reconhece o dever, planejou o estudo, ate abriu o material. E entao desliza para o celular, abre uma rede social e perde duas horas. Voce nao desconhecia o dever de estudar. Voce conhecia. Mas o apetite imediato venceu a razao deliberativa. Isso e akrasia em estado puro.
O ponto filosofico que Aristoteles destaca e que a akrasia nao se confunde com vicio pleno. O vicioso age mal sem conflito, ja moldou seu carater para o erro. O akratico, ao contrario, sente o conflito, lamenta a queda, deseja melhorar e cai de novo. A fraqueza da vontade pressupoe, portanto, alguma forma de consciencia moral preservada.
2. O embate com o intelectualismo socratico
Socrates sustentou ao longo dos dialogos platonicos que ninguem faz o mal voluntariamente. Para ele, se uma pessoa realmente conhecesse o bem, agiria conforme o bem. O erro moral seria sempre uma forma de erro cognitivo, uma ignorancia disfarcada. Essa posicao ficou conhecida como intelectualismo etico.
Aristoteles olhou para essa tese com olhos de observador da vida real e respondeu: a experiencia desmente. Vemos diariamente pessoas que sabem perfeitamente o que e certo e ainda assim agem mal. O bebado sabe que nao deveria beber mais. O traidor sabe que esta traindo. O servidor sabe que esta violando o codigo. E todos seguem em frente apesar do saber.
Atencao para a pegadinha de banca. A FGV adora inverter os filosofos. Quando o enunciado diz que para Aristoteles ninguem faz o mal sabendo que e mal, isso esta errado. Essa e a tese de Socrates, refutada justamente por Aristoteles atraves do conceito de akrasia. Inverter os dois e o classico tropeco de quem nao gravou o nucleo do debate.
3. Razao deliberativa e apetite
Para Aristoteles, a alma humana tem partes racionais e nao racionais. A parte racional conhece o bem e delibera sobre como alcanca lo. A parte apetitiva deseja prazeres imediatos. No agente virtuoso, a razao governa o apetite. No akratico, o apetite vence a razao em momentos pontuais, ainda que a razao saiba o que deveria ser feito.
Essa estrutura psicologica explica por que conhecer a norma nao basta. O conhecimento mora na parte racional, mas a acao depende tambem da parte apetitiva estar treinada para obedecer. Se o apetite nunca foi educado, a razao sozinha nao consegue conter o impulso no momento decisivo.
Dai a conclusao pratica aristotelica: a virtude e habito. So treinando o apetite por meio de acoes repetidas e que o agente forma um carater capaz de transformar o saber em agir. E o ponto que mais distingue Aristoteles de Socrates e tambem o que mais cai em prova de etica filosofica aplicada ao servico publico.
4. Por que a banca FGV ama akrasia
A banca FGV tem predilecao por conceitos gregos com nome proprio porque permitem questoes elegantes que separam o candidato que estudou de verdade do que so decorou paragrafos do Decreto 1.171. Akrasia entra exatamente nessa categoria, junto com prudencia, virtude, habito e mesotes.
O modo classico de cobrar e descrever uma situacao em que o servidor conhece o codigo e age contra ele, e pedir ao candidato que identifique o conceito filosofico subjacente. Quem domina akrasia bate o olho e responde. Quem nao domina fica oscilando entre alternativas com cara de certas.
Outro padrao e atribuir falsamente a Aristoteles a tese socratica de que o vicio e ignorancia. Aqui o erro e classico e a alternativa correta sera sempre aquela que reconhece a refutacao aristotelica via akrasia. Gravou? Acertou.
Akrasia e o servidor que conhece o Decreto 1.171
O conceito ganha forca pratica quando aplicado ao servidor publico. Aqui akrasia, fraqueza da vontade, deixa de ser teoria grega e vira diagnostico do que acontece nos corredores do servico publico todo dia.
Conhecimento
O servidor estudou o Decreto 1.171 e sabe os deveres do artigo segundo.
Reconhecimento
Identifica que determinada conduta viola a norma etica.
Queda
Ainda assim age contra o codigo, cedendo a vantagem imediata.
Diagnostico
Nao e ignorancia, e akrasia. Fraqueza, nao desconhecimento.
1. O servidor estudou e mesmo assim falhou
Imagine o servidor que passou em concurso, estudou o Decreto 1.171 inteiro, sabe que e dever exercer suas atribuicoes com zelo, conhece a vedacao a usar o cargo para beneficio pessoal e ainda assim aceita o pequeno favor, a cortesia, o agrado. Esse servidor nao caiu por ignorancia. Caiu por akrasia.
O que separa esse servidor do que age corretamente nao e o conhecimento da norma. Ambos conhecem. O que separa e o habito de obedecer. O servidor virtuoso treinou a si mesmo para fazer o que e devido mesmo quando ninguem ve. O akratico ainda nao consolidou esse habito e desliza diante da primeira tentacao concreta.
O Decreto 1.171, na linguagem aristotelica, e um excelente material racional. Ele informa, esclarece, indica deveres. Mas, sozinho, ele nao forma carater. Quem nao treina a obediencia na pratica acaba akratico, conhecendo o codigo de cor e violando o em situacoes pontuais nas quais o apetite imediato fala mais alto.
2. Akrasia nao e ma fe
E importante distinguir akrasia de outras categorias morais que aparecem na etica do servico publico. O servidor akratico nao e necessariamente um corrupto consolidado. O corrupto, na chave aristotelica, e o vicioso pleno: ele moldou seu carater para o erro, nao sente conflito interno, ja naturalizou a conduta desviante.
O akratico, ao contrario, sente o conflito. Ele sabe que aquilo esta errado, ele se incomoda, ele tenta resistir, e mesmo assim cede. Por isso a akrasia pressupoe consciencia moral preservada. Sem essa consciencia, nao haveria fraqueza da vontade, haveria apenas vicio.
Atencao a essa diferenca em prova. Banca pode descrever um servidor que cedeu uma vez sob pressao, sentiu remorso, tentou corrigir. Esse perfil e akratico, nao vicioso. Identificar essa nuance demonstra dominio do quadro aristotelico completo, nao apenas do termo isolado.
3. Como o habito previne a akrasia
A resposta aristotelica para a akrasia nao e mais informacao, e mais habito. Se o problema esta na parte apetitiva da alma, e ali que precisa ser treinada. Voce treina o apetite repetindo acoes virtuosas em situacoes de baixa pressao para que, em situacoes de alta pressao, a resposta correta venha automatica.
No servico publico isso significa pequenas decisoes diarias. Recusar o cafezinho oferecido pelo interessado em processo. Nao usar o e mail funcional para assunto particular. Cumprir prazo mesmo quando ninguem cobra. Essas pequenas obediencias formam o solo do carater que, em uma situacao critica, vai segurar o servidor antes que ele caia.
O Decreto 1.171, lido com lente aristotelica, deixa de ser checklist e vira programa de formacao de habitos. Cada dever ali listado e um treino. Cada vedacao, um musculo a ser fortalecido pela repeticao. So assim o saber se converte em agir e a akrasia perde espaco.
4. Identificar akrasia no enunciado
Quando a banca apresenta uma questao sobre etica filosofica aplicada, os sinais de akrasia sao reconheciveis. O enunciado costuma descrever que o servidor sabia da norma, conhecia o codigo, foi treinado, recebeu orientacao, e ainda assim agiu contra. Esse sabia e mesmo assim e a marca registrada do conceito.
O candidato preparado le esses sinais e elimina alternativas que falam em ignorancia, desconhecimento ou falta de informacao. A questao nao trata de quem nao sabia. Trata de quem sabia e falhou. A alternativa correta sera aquela que mobiliza akrasia, fraqueza da vontade, incontinencia moral ou expressoes equivalentes.
Atencao tambem para enunciados que pedem o filosofo correto. Akrasia e Aristoteles. Se aparece Socrates associado a refutacao do intelectualismo, esta errado. Socrates e a tese que Aristoteles refuta, nao a refutacao em si. Gravar essa direcao do debate evita perder ponto facil.
Acao imediata
Antes da prova, responda
Checklist de validacao
- 1Voce sabe distinguir akrasia de ignorancia moral?
- 2Consegue explicar por que Aristoteles refuta Socrates nesse ponto?
- 3Identifica akrasia em um enunciado que descreve servidor que sabia e falhou?
- 4Reconhece que a banca FGV troca os filosofos como pegadinha classica?
- 5Compreende que a virtude exige habito, nao apenas conhecimento do codigo?
Conhecer o Decreto 1.171 nao basta. A virtude se prova no momento em que o apetite tenta vencer a razao.
Sintese
Akrasia, o conceito que separa saber de agir
Akrasia, fraqueza da vontade, e a chave conceitual que explica por que tanto servidor que conhece o Decreto 1.171 ainda assim age contra ele. Nao e falta de informacao, e falta de dominio sobre os apetites. Esse e o nucleo da resposta aristotelica ao intelectualismo socratico e e exatamente isso que a banca FGV cobra quando entra no terreno da etica filosofica.
Quem grava a direcao correta do debate, Socrates defende que ninguem erra sabendo e Aristoteles refuta via akrasia, ganha vantagem real em questao de prova. Quem confunde os dois, perde ponto certeiro. A distincao parece sutil mas e cirurgica e a banca explora exatamente essa sutileza com elegancia.
Mais do que conceito de prova, akrasia e diagnostico de carreira. O servidor que se conhece como potencialmente akratico em determinadas situacoes pode treinar seu carater por meio de pequenas obediencias diarias, formando habito que, na hora critica, o segura antes da queda. Aristoteles seria um excelente conselheiro de integridade publica.
Gravar akrasia, portanto, e gravar duas coisas ao mesmo tempo: a resposta correta para a prova e a chave para entender a propria conduta no servico publico. Saber e mesmo assim falhar tem nome filosofico. E ter nome para o problema e o primeiro passo para enfrenta lo.
Dúvidas sobre o tema
O que e akrasia segundo Aristoteles?+
Akrasia e a fraqueza da vontade, conceito que descreve o agente moral que conhece o bem, reconhece o dever e ainda assim age contra ele. Para Aristoteles, nao se trata de ignorancia, mas de incapacidade momentanea de dominar os apetites com a razao deliberativa. O termo grego sugere literalmente falta de poder sobre si mesmo.
Qual a diferenca entre akrasia e a tese de Socrates?+
Socrates defendia o intelectualismo etico, segundo o qual ninguem faz o mal sabendo que e mal. Todo erro moral seria ignorancia. Aristoteles refuta essa tese atraves do conceito de akrasia, mostrando que a experiencia humana revela pessoas que sabem o que e certo e mesmo assim agem mal por fraqueza da vontade.
Como a banca FGV cobra akrasia em prova de etica?+
A FGV costuma descrever situacoes em que o servidor conhecia a norma e mesmo assim a violou, pedindo identificacao do conceito filosofico subjacente. Outra pegadinha classica e atribuir falsamente a Aristoteles a tese socratica do intelectualismo, exigindo que o candidato reconheca o erro. Dominar essa direcao do debate evita perder ponto facil.
Akrasia e o mesmo que vicio?+
Nao. O vicioso, segundo Aristoteles, moldou seu carater para o erro e age mal sem conflito interno. O akratico, ao contrario, mantem consciencia moral preservada, sente o conflito entre o que sabe e o que faz, lamenta a queda e tenta resistir. A akrasia pressupoe, portanto, alguma virtude residual que o vicio ja consumiu.
Como aplicar akrasia ao Decreto 1.171?+
O servidor que estudou o Decreto 1.171, conhece seus deveres e suas vedacoes, e ainda assim viola o codigo em situacao pontual esta em akrasia. Nao desconhece a norma, conhece. O que falta nao e informacao, e habito formado pelo treino consistente de pequenas obediencias diarias que solidificam o carater virtuoso.
Tiago Zanolla
Fundador da UFEM Educacional
Professor há mais de 15 anos, com mais de 2.000 aulas produzidas e mais de 2 milhões de alunos impactados. Engenheiro de produção por formação, é autor do livro Ética no Serviço Público: uma visão moderna e referência nacional em ensino jurídico para concursos.