Série 190 Leis · Nº 012
Regra 90-90: por que sua revisão nunca cabe no prazo
Você fecha o edital inteiro e sobra uma semana para revisar tudo. Não é falta de disciplina. É uma conta errada que você fez sem perceber no primeiro dia de estudo.
O cronograma de edital termina em cima da prova e a revisão fica espremida em poucos dias sem valor real.
O plano contabiliza só a primeira passada pela matéria e ignora o custo de fixar, corrigir e treinar, que é o alerta da Regra 90-90.
Bloquear no calendário a fase de questões e revisão antes de distribuir os tópicos do edital.
Menos matéria vista, mais matéria dominada, e uma reta final sem maratona de última hora.
A Regra 90-90 é a conta que eu vejo estourar em aluno concurseiro todo ano, sempre no mesmo ponto do calendário. Ela diz assim: os primeiros 90% do trabalho consomem 90% do tempo, e os 10% que faltam consomem os outros 90%. Total: 180%.
O número é impossível por escolha de quem escreveu.
Quem cunhou a frase foi Tom Cargill, engenheiro do Bell Labs, nos anos 1980, olhando para projetos de software que passavam meses inteiros anunciando que estavam quase prontos. Em quinze anos dando aula, eu troquei o software pelo edital e a frase continua funcionando sem precisar mudar uma vírgula.
O aluno monta o cronograma com o edital verticalizado na mão. Divide os tópicos pelas semanas que faltam até a prova. A conta fecha bonitinho na planilha, com folga até. E a Regra 90-90 já está lá dentro, invisível, esperando a hora de cobrar.
Ela cobra quando falta um mês. O aluno fechou o edital, tem a sensação de ter visto tudo, abre um simulado e acerta 48%. Aí vem a pergunta que eu escuto com mais frequência na minha caixa de mensagem: se eu estudei tudo, por que eu não sei nada?
Você sabe. Você só não terminou.
Fechar o edital não é terminar de estudar. É terminar a primeira metade do trabalho, aquela que a Regra 90-90 chama de 90% inicial. A segunda metade é onde a nota de corte é decidida.
O diagnóstico
Onde a Regra 90-90 pega o concurseiro
A regra não fala de esforço. Fala de contabilidade: o que você não colocou no cronograma continua existindo e cobra o tempo dele de qualquer jeito.
A planilha honesta
O cronograma que você montou é verdadeiro para a primeira passada. Ele só não descreve o projeto inteiro que a Regra 90-90 aponta.
O quase pronto
Faltam três tópicos há seis semanas. Esse estado longo é o sintoma mais confiável de que a conta furou.
Cyberpunk 2077
Anunciado em 2012, adiado três vezes em 2020 e lançado quebrado. A Sony tirou o jogo da loja por meses.
O corte errado
Prazo apertou, o aluno corta simulado e revisão. A Regra 90-90 mostra que ele cortou justamente a metade que valia a vaga.
1. O que eu vejo na planilha de quem me procura
Quando um aluno me manda o cronograma dele para eu olhar, eu olho primeiro o fim. Não o começo. E na maioria absoluta das vezes o fim é a última linha do edital caindo em cima da semana da prova, com dois ou três dias sobrando para o que ele chama de revisão geral.
Essa planilha não está errada em nada que ela mostra. Ela está errada no que ela não mostra. A Regra 90-90 é exatamente esse buraco: o cronograma orçou a leitura, a videoaula e o resumo, e não orçou uma única hora para o trabalho de fixar aquilo.
Aí o mês final chega e a agenda não tem espaço vago. Porque nunca teve.
2. Por que ver a matéria custa tão pouco
Ver matéria é a parte barata do estudo, e é por isso que ela engana. Você senta, assiste, grifa, fecha o caderno com a sensação boa de tarefa cumprida. Rende. Aparece na planilha. Dá para postar o print do ciclo fechado.
O trabalho caro é outro. É voltar naquele tópico depois de errar quatro questões, descobrir que confundiu dois prazos parecidos, montar o cartão de revisão, refazer o assunto na semana seguinte e conferir se dessa vez ficou.
Esse segundo trabalho não tem fim visível no momento em que você planeja, e a Regra 90-90 nasce disso. O que não tem fim visível não entra no cálculo de ninguém, nem do engenheiro do Bell Labs nem do concurseiro que trabalha oito horas por dia e estuda três.
3. O caso que mostra a conta em escala
Cyberpunk 2077 é o exemplo mais didático que eu conheço. Anunciado em 2012, virou um dos jogos mais esperados da década. Em 2020 foi adiado três vezes, sempre com o mesmo recado: falta pouco, estamos nos ajustes finais.
Saiu em dezembro incompleto e cheio de defeito. A Sony removeu o título da própria loja digital e ele ficou meses fora do ar. O conteúdo estava lá. Faltavam os 10% de polimento, correção e integração.
Um estúdio com centenas de pessoas e orçamento de centenas de milhões não conseguiu comprimir a segunda metade do trabalho. Você, sozinho, na sua cozinha, depois do expediente, também não vai conseguir. A Regra 90-90 não abre exceção por esforço.
4. Os 10% que decidem a aprovação
Na banca, a diferença entre o candidato aprovado e o que fica em vigésimo lugar quase nunca é conteúdo desconhecido. É conteúdo conhecido pela metade, respondido com dúvida, marcado no chute educado.
Esses 10% finais que a Regra 90-90 isola têm nome no nosso mundo: resolução de questões da banca, revisão programada e simulado cronometrado. É a parte que transforma matéria vista em matéria disponível na hora da prova, com o relógio correndo e quatro alternativas parecidas na tela.
Eu costumo dizer para o aluno que ver a matéria são os primeiros 90%, e a prova se ganha nos outros 90. Soa como brincadeira. É a descrição literal do que acontece.
O ajuste
Remontando o ciclo com a Regra 90-90
A correção é de planejamento, não de força de vontade. Quem trabalha e estuda não tem heroísmo sobrando para gastar na última semana.
Bloco reservado
Marque primeiro as semanas de questões e revisão no calendário. Só depois distribua os tópicos do edital.
Corte na entrada
Se o edital não couber, corte tópico de baixa incidência na banca. Nunca corte a revisão do que já viu.
Critério numérico
Tópico encerrado pela Regra 90-90 é tópico com acerto consistente em questões inéditas, não com videoaula assistida.
Ciclo com retorno
Toda semana precisa ter uma fatia dedicada ao que foi estudado semanas atrás, ou nada gruda.
1. Reserve o fim antes de planejar o começo
Esse é o ajuste que muda mais resultado com menos esforço. Abra o calendário até a data da prova e, antes de encaixar qualquer tópico, pinte as últimas semanas como fase de fechamento. Elas ficam bloqueadas. Não entra matéria nova ali.
Só depois disso você distribui o edital no espaço que sobrou. Se não couber, você descobre agora, com meses de antecedência e cabeça fria, e não na véspera, no desespero.
É contraintuitivo e funciona. A Regra 90-90 diz que a fase final tem peso equivalente à fase inicial, e nada com esse peso sobrevive sendo tratado como sobra de calendário.
2. Troque a sensação por um número
Já vi essa matéria é a frase mais cara do vocabulário do concurseiro. Ela mede exposição, e exposição não é aprovação. Enquanto o seu critério de conclusão for uma sensação, você vai viver no quase pronto que a Regra 90-90 descreve.
O substituto é simples e incômodo: qual foi o seu percentual de acerto em questões inéditas desse tópico na semana passada? Se você não sabe responder, o tópico não está fechado. Se você sabe e o número está em 50%, ele está aberto e caro.
Anote esse percentual ao lado de cada item do edital verticalizado. Em duas semanas você vai enxergar seu edital de um jeito completamente diferente.
O papel não mente por educação.
3. Menos edital vale mais que edital inteiro
Aqui eu costumo perder aluno na primeira conversa, e ganhar de volta depois da primeira prova. Chegar na banca com trinta tópicos vistos superficialmente rende menos que chegar com dezoito tópicos dominados, especialmente em prova com peso alto de questões.
A Regra 90-90 sustenta isso na matemática: cada tópico custa duas vezes o que você imagina. Se o cronograma só cabe na conta ignorando a segunda metade, ele não cabe.
Então corte na entrada. Olhe a incidência dos últimos três concursos da banca, identifique o que quase nunca cai e retire do plano sem culpa. O tempo que sobra vai para questões do que realmente cai.
4. A rotina de quem trabalha e estuda
Quem estuda em tempo integral consegue absorver um erro de planejamento na base do volume. Quem estuda depois do trabalho, não. Nessa rotina, a Regra 90-90 é a diferença entre passar em dois anos e ficar tentando por cinco.
O formato que eu vejo funcionar melhor é o ciclo com retorno embutido: de cada cinco blocos de estudo da semana, três de conteúdo novo e dois de questões e revisão do que já passou. A proporção parece exagerada quando o edital está grande na sua frente.
Ela deixa de parecer no dia em que você faz o primeiro simulado e o resultado não humilha.
Não é motivação. É a contabilidade da Regra 90-90 aplicada a quem tem pouca hora por dia.
Autoteste
Cinco perguntas para o seu cronograma
Responda com o calendário aberto na frente, sem arredondar nada a seu favor, e veja onde a Regra 90-90 está agindo.
- Existe alguma semana no seu calendário reservada só para questões e revisão, com data marcada?
- Se a prova fosse daqui a trinta dias, o que você cortaria primeiro: tópico novo ou revisão?
- Você sabe dizer seu percentual de acerto em questões dos cinco tópicos que mais caem na sua banca?
- Há quantas semanas o seu edital está no estado de faltam só uns tópicos?
- Do tempo de estudo da semana passada, quanto foi conteúdo novo e quanto foi retorno ao que já viu?
O aluno não reprova por não ter visto a matéria. Reprova por ter parado no meio e ter chamado aquilo de fim.
Síntese
O edital fechado é metade do caminho
A Regra 90-90 não é pessimismo de engenheiro. É uma descrição honesta de como o trabalho se comporta quando ninguém está olhando para a segunda metade dele.
Se você levar uma coisa só deste texto, leve essa: bloqueie as semanas de revisão e questões antes de distribuir qualquer tópico do edital. Todo o resto se ajusta em volta disso.
Tom Cargill escreveu a frase nos anos 1980 pensando em software. Quatro décadas depois, ela continua explicando por que tanto candidato bom chega na prova cansado, com o edital fechado, e mesmo assim fica a três pontos da vaga.
Perguntas frequentes
Dúvidas sobre o tema
Quanto tempo do cronograma eu devo reservar para revisão?+
Na prática, o bloco de fechamento precisa ser comparável ao tempo gasto vendo a matéria, e não um apêndice de poucos dias. É o que a Regra 90-90 sugere quando aponta peso equivalente nas duas metades. Uma proporção que costuma funcionar é dedicar cerca de 40% da carga semanal a questões e retorno. Ajuste conforme o seu percentual de acerto for subindo.
Vale a pena fechar o edital inteiro antes de começar a revisar?+
Não. Esse é o caminho mais direto para viver o estouro que a Regra 90-90 descreve. A revisão precisa acontecer em paralelo, desde a primeira semana, senão o conteúdo antigo evapora enquanto o novo entra. Fechar o edital sem retorno programado é ver matéria duas vezes pela primeira vez.
Meu simulado deu resultado ruim mesmo tendo estudado tudo. É normal?+
É esperado, e não indica falta de capacidade. Estudar tudo significa ter cumprido os primeiros 90% do trabalho, na leitura da Regra 90-90. O desempenho em prova depende da segunda metade, que é treino com questões da banca sob tempo. O resultado costuma subir rápido quando essa fase entra na rotina.
Como escolher o que cortar quando o edital não cabe no prazo?+
Levante a incidência dos últimos concursos da mesma banca e elimine os tópicos com histórico baixo de cobrança. Corte sempre na entrada, em conteúdo novo, e nunca na revisão do que já foi estudado, porque a Regra 90-90 mostra que é ali que o resultado se define. Tópico dominado pontua, tópico visto pela metade não.
Tiago Zanolla
Fundador da UFEM Educacional
Professor há mais de 15 anos, com mais de 2.000 aulas produzidas e mais de 2 milhões de alunos impactados. Engenheiro de produção por formação, autor do livro Ética no Serviço Público: uma visão moderna e referência nacional em ensino para concursos. A série 190 Leis publica, de segunda a sexta, uma lei, efeito ou paradoxo que explica como você estuda, decide e trabalha.
Imagem de capa: Unsplash.