Tecnologia encurta o caminho até o diploma e traz adultos de volta aos estudos | Tiago Zanolla
Equipe reunida na mesma mesa, cada pessoa concentrada na própria tela de laptop
Gestão & Inteligência Artificial

O paradoxo de Abilene e a sua corrida pela IA

Existe um motivo silencioso por trás dos projetos de IA que ninguém defende de verdade: a empresa inteira concorda com algo que ninguém, sozinho, queria. E a conta chega depois.

Fundador da UFEM Engenheiro de produção Dados verificados

Quase toda empresa que embarca num projeto de IA condenado começa do mesmo jeito: uma reunião em que todo mundo concorda. O CEO sugere, a diretoria assente, o time técnico anota a tarefa. Ninguém levanta a mão para dizer que aquilo não resolve problema nenhum. Seis meses e alguns milhões depois, o projeto morre na gaveta. E aí, só aí, as pessoas confessam em particular: eu nunca acreditei nisso. Esse fenômeno tem nome, idade e endereço.

Uma tarde quente no Texas

Quem batizou o fenômeno foi Jerry B. Harvey, professor de gestão, num artigo de 1974 chamado The Abilene Paradox: The Management of Agreement. A história real é boba e por isso mesmo poderosa. Numa tarde de quase 40°C, uma família estava confortável jogando dominó na varanda. Alguém sugeriu, meio sem querer, pegar o carro e dirigir 53 milhas até a cidade de Abilene para jantar. Um a um, todos toparam. Encararam mais de uma hora de estrada empoeirada, num carro sem ar-condicionado, comeram mal e voltaram exaustos.

De volta em casa, a verdade apareceu. Ninguém queria ter ido. Cada um só concordou porque achou que os outros estavam animados. Inclusive quem deu a ideia, que falou apenas para puxar conversa.

Quatro pessoas. Zero vontade. Uma viagem inteira.

Não é pensamento de grupo. É pior.

Muita gente confunde isso com pensamento de grupo, o famoso groupthink. Mas o paradoxo de Abilene é mais perverso. No groupthink, as pessoas se convencem de verdade de que a decisão ruim é boa. No paradoxo de Abilene, cada um sabe que é ruim e mesmo assim entra no carro. O problema, então, não é falta de consenso. É um consenso de mentira, construído sobre o medo de ser o único a discordar.

Harvey resumiu numa frase que deveria estar na parede de toda diretoria.

A incapacidade de administrar a concordância, e não o conflito, é a doença que define as organizações.

Jerry B. Harvey, autor de The Abilene Paradox
Aperto de mãos entre dois profissionais em ambiente de escritório
O aperto de mãos que sela um acordo que ninguém, sozinho, queria.

Por que a corrida pela IA virou a estrada para Abilene

Agora junte esse mecanismo com a maior onda de pressão tecnológica da década. Todo conselho quer poder dizer que está fazendo IA. Todo concorrente anuncia que já está. Todo fornecedor promete que é simples. Ninguém quer ser o único parado na varanda enquanto o mercado inteiro dirige para Abilene.

Então a empresa aprova o projeto. O time técnico, que enxerga os furos, fica quieto, porque presume que a diretoria já decidiu. A diretoria, que não domina a parte técnica, presume que o time validou. E todo mundo entra no carro achando que está atendendo à vontade dos outros. O resultado aparece nos números, e eles são brutais.

95%dos pilotos de IA generativa nas empresas não entregam impacto mensurável no resultado financeiro.Fonte: MIT NANDA, The GenAI Divide: State of AI in Business, 2025.

Não é um dado solto. O estudo do MIT analisou 300 implantações públicas, ouviu 150 executivos e mapeou um abismo: apesar de algo entre 30 e 40 bilhões de dólares investidos, a esmagadora maioria dos projetos não saiu do papel. A Gartner projetou que 30% das iniciativas de IA generativa seriam abandonadas ainda na prova de conceito até o fim de 2025, e estima que mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até 2027. A RAND foi além: mais de 80% dos projetos de IA fracassam, o dobro da taxa dos projetos de tecnologia que não envolvem IA.

Vista de baixo para cima de torres corporativas de vidro e aço
A pressão do mercado empurra a decisão antes de alguém perguntar para onde estamos indo.

O sintoma que denuncia a viagem

Quando a RAND foi atrás da causa raiz desses fracassos, não encontrou falta de tecnologia. Encontrou desalinhamento de propósito. Na maior parte dos casos, líderes e equipe técnica nunca concordaram, de verdade, sobre qual problema o projeto deveria resolver. O sucesso nunca foi definido com clareza. A responsabilidade nunca teve dono. É a assinatura do paradoxo de Abilene em formato de cronograma: todo mundo tocando, ninguém querendo, e ninguém disposto a puxar o freio.

A diferença entre uma decisão de verdade e uma viagem a Abilene cabe nesta comparação.

Decisão de verdade

Alguém define o problema, expõe a dúvida em voz alta, assume o risco e tem permissão real para dizer não.

Viagem a Abilene

Todos concordam rápido, ninguém discorda, o propósito fica vago e a fatura aparece lá na frente.

Como não embarcar nessa viagem

A boa notícia para quem lidera transformação digital é que o paradoxo se desmonta com método, não com sorte. Cinco movimentos resolvem a maior parte do problema.

  1. Peça o desacordo, não o aplauso. Antes de aprovar, pergunte de forma direta: quem aqui acha que isso é má ideia? E segure o silêncio até alguém responder de verdade.
  2. Defina o problema antes da ferramenta. Se você não consegue escrever em uma frase qual dor a IA vai resolver e como vai medir o resultado, você já está na estrada para Abilene.
  3. Separe quem decide de quem valida. A diretoria decide o porquê. O time técnico precisa ter poder de veto sobre o como. Sem veto, não existe validação, existe silêncio educado.
  4. Comece pequeno e mensurável. Um caso de uso com dono, prazo e métrica vale mais que uma transformação AI FIRST sem rumo e sem freio.
  5. Mate o projeto cedo, sem vergonha. Reconhecer que ninguém queria a viagem custa muito menos no quilômetro 5 do que no quilômetro 80.
Dois profissionais analisando um plano desenhado no papel sobre a mesa, ao lado de laptops
Alinhamento de verdade acontece quando alguém coloca o plano na mesa e aceita ser confrontado.

O custo escondido de chegar a Abilene

O projeto de IA que ninguém defendia não sai de graça quando morre. Vai junto o orçamento queimado, o time desmotivado que sabia desde o começo, e a credibilidade da próxima iniciativa, dessa vez talvez boa, que vai esbarrar no ceticismo de quem já viu esse filme. Pior: a empresa aprende a lição errada. Conclui que IA não funciona, quando o que não funcionou foi a forma de decidir.

A tecnologia não falhou. O acordo falhou.

Perguntas rápidas

O paradoxo de Abilene é o mesmo que pensamento de grupo?

Não. No pensamento de grupo, as pessoas realmente acreditam na decisão. No paradoxo de Abilene, cada um discorda por dentro e concorda por fora. O inimigo aqui não é a pressão por consenso, é o medo de quebrar um consenso que nem existe.

Então a culpa é da inteligência artificial?

Não. A IA é só o destino da vez. O mesmo padrão derrubou projetos de ERP, de transformação ágil e de reestruturação. O problema é a forma de decidir. Os 5% de projetos que dão certo, no estudo do MIT, partem de um propósito claro e de gente disposta a discordar cedo.

Como sei se meu projeto de IA está indo para Abilene?

Três sinais. O consenso veio rápido demais e sem atrito. Ninguém da mesa consegue dizer, em uma frase, qual problema o projeto resolve. E o time técnico, que costuma reclamar de tudo, ficou estranhamente calado.

Vale a pena insistir em IA depois de um fracasso?

Vale, desde que você troque a pergunta. Em vez de "como uso IA aqui", comece por "qual problema caro e repetitivo eu tenho" e só então pergunte se a IA é a melhor resposta. Propósito primeiro, ferramenta depois.

Fontes verificadas
Harvey, Organizational Dynamics, 1974 MIT NANDA, State of AI in Business 2025 Gartner RAND Corporation
Retrato de Tiago Zanolla

Tiago Zanolla

Fundador da UFEM · Engenheiro de produção

Escreve sobre gestão, tecnologia e decisão em empresas que querem usar IA sem virar refém da modinha. A tese é simples: a tecnologia entra para servir a estratégia, não para substituí-la.

Gestão & IA Dados verificados