Tecnologia encurta o caminho até o diploma e traz adultos de volta aos estudos | Tiago Zanolla
Equipe trabalhando lado a lado com tecnologia, cada um revisando a própria tela
Opinião · IA & Negócios

O delírio coletivo da AI FIRST

Transformar tudo em IA não é estratégia. É distração. O erro está em achar que um bot sozinho roda 100% da operação.

Fundador da UFEM Engenheiro de produção Dados verificados

Hoje eu vejo muita gente indo na mesma direção: demitir o humano e plugar um robô no lugar. Eu opero ao contrário. Invisto pesado em IA e treino o time para usar e revisar essa IA. Tem funcionado, e os números, mais a própria Meta, começam a me dar razão.

A modinha que custa caro

A pressa de virar AI FIRST cobra um preço que não aparece na planilha do mês seguinte. Quase sempre por três motivos:

  • Promessas fáceisA IA virou modismo. Soluções mágicas são vendidas como atalhos para resultados que ninguém entrega.
  • Foco perdidoEmpresas se perdem em testes e ferramentas, enquanto o que de fato importa fica para depois.
  • Gente esquecidaTecnologia sem pessoas preparadas é só mais um projeto caro que não sai do papel.

Onde a IA substitui de verdade, e onde quebra

Não é torcer o nariz para a máquina nem se ajoelhar para ela. É saber onde fica a fronteira. De um lado, a IA é imbatível. Do outro, ela trava. O maior erro do AI FIRST é jogar o bot para o lado errado dessa linha.

A IA assume bem

Volume, repetição, rascunho, triagem, resposta padrão e organizar dados.

A IA ainda quebra

Exceção, julgamento, contexto do cliente, confiança e decisão com risco real.

A IA substitui quem trabalha mal

Tem uma verdade incômoda aqui, e eu não vou fugir dela: a IA substitui gente, sim. Só que não é quem você imagina. Ela não ameaça quem trabalha bem. Ameaça quem entregava o mínimo, copiava e colava, fazia tudo no automático. Quem já trabalhava como um robô perde para o robô. O bom profissional, que usa julgamento e cuidado, fica mais valioso.

Você não vai perder o emprego para a IA. Vai perder para alguém que usa IA.

Jensen Huang, presidente da NVIDIA

E o mercado já anda nessa direção. Numa pesquisa com executivos, 60% disseram que consideram cortar quem se recusa a adotar IA, e quem usa a ferramenta teve três vezes mais chance de ser promovido no último ano. Não é a tecnologia punindo alguém. É que o trabalho sem esforço, aquele que a máquina faz igual, perdeu o valor.

O que se perde quando o bot assume 100%

Cortar o humano não é só apertar um botão e economizar um salário. Junto com a pessoa, saem coisas que não cabem em relatório:

  • Conhecimento que ninguém documentouO histórico do cliente e o porquê de cada decisão saem com quem foi embora.
  • Qualidade e confiançaO cliente sente quando fala com um script. A eficiência sobe no painel, a satisfação cai no mundo real.
  • O custo escondido do retrabalhoErro para refazer, cliente que reclama, gente recontratada às pressas. A economia volta como conta.

O boomerang: 2 em 3 já recontrataram

Aperto de mãos em ambiente de escritório
As empresas que cortaram fundo estão trazendo gente de volta.
2 em 3empresas que cortaram vagas por causa da IA já recontrataram parte do time.Fonte: pesquisa Careerminds, via The Washington Times, 2026.

E não para por aí. Foram cerca de 55 mil cortes atribuídos diretamente à IA em 2025 nos Estados Unidos (Challenger, Gray e Christmas). Entre as empresas do S&P 500 que demitiram por IA, 56% ficaram com a ação no vermelho (CNBC). E 1 em cada 3 gastou mais recontratando do que tinha economizado ao demitir.

Quem já voltou atrás

Prédios corporativos vistos de baixo
De gigantes da tecnologia a bancos: o recuo já começou.
  • Meta. Em memorando interno de junho de 2026, revisado pela Reuters, Zuckerberg admitiu: "cometemos erros e quase certamente cometeremos mais". A empresa demitiu cerca de 8 mil pessoas e afetou perto de 20% do quadro.
  • Um banco inteiro. O Commonwealth Bank, da Austrália, trocou 45 atendentes por um robô de voz, viu as filas explodirem, admitiu o "erro", pediu desculpas e recontratou.
  • Klarna. A fintech trocou cerca de 700 atendentes por um chatbot. O CEO reconheceu: "fomos longe demais, focamos em eficiência e custo".
  • E o caso que parece piada. Um desenvolvedor demitiu o time inteiro de programadores por IA e, poucos dias depois, já anunciava vaga para programador experiente.

O que aconteceu quando eu fiz o inverso

Mãos revisando um plano sobre a mesa, ao lado de notebooks
A máquina propõe, a pessoa confere, decide e lapida.

Numa das minhas empresas, eu fiz o oposto do que o mercado estava fazendo. Em vez de demitir e plugar um bot, investi em IA e no desenvolvimento de ferramentas próprias. E mantive o humano onde ele faz diferença.

4xfoi o salto na produtividade de quem já fazia bem o trabalho, em um ano. O faturamento subiu junto.

O humano continuou lá o tempo todo: operando, conferindo, lapidando o que a IA entrega. Não foi a máquina sozinha. Foi a máquina multiplicando gente boa que sabe o que está fazendo. Essa é a parte que a modinha do AI FIRST não conta: quando a IA multiplica o humano, em vez de substituí-lo, o teto sobe junto.

Como fazer certo

Não é antitecnologia. É colocar cada um no seu lugar. Funciona assim, na ordem:

  1. Invisto em IA e em ferramenta própriaa certa para o problema certo, muitas vezes sob medida.
  2. Treino o time para usarquem usa bem manda na máquina, e não o contrário.
  3. Coloco o humano para revisar e lapidara IA propõe, a pessoa decide antes de chegar ao cliente.
  4. Meço qualidade, não só velocidadeo sinal de saúde é rapidez subindo com qualidade firme.

Perguntas que sempre me fazem

Então a IA não substitui ninguém?
Substitui parte do trabalho, sim: tarefa repetitiva, triagem, primeira versão de texto. O que ela não substitui é a operação inteira. Quem aposta no 100% bot descobre o limite na pior hora, na frente do cliente.
Dá para rodar marketing digital só com agente de IA?
Dá para acelerar muito. Rodar 100% da demanda sem ninguém conferindo não se sustenta por muito tempo. A entrega vira genérica, o erro passa batido e o cliente sente.
Investir em IA e ainda manter o time não fica mais caro?
No curto prazo parece. No médio prazo é mais barato, porque você não paga o retrabalho, a perda de conhecimento e a recontratação às pressas. 1 em cada 3 empresas gastou mais recontratando do que economizou.
Por onde eu começo?
Escolha um processo só, coloque a ferramenta certa, treine quem já faz aquilo e mantenha a pessoa revisando a saída da IA. Quando esse processo estiver redondo, expanda para o próximo.
Fontes verificadas
Reuters CNBC The Washington Times Challenger, Gray & Christmas Fortune
Tiago Zanolla
Tiago Zanolla
CEO e fundador da UFEM, empresário do digital
Constrói negócios com tecnologia colocando o humano no comando: IA e ferramentas próprias para acelerar, gente treinada para conferir, lapidar e decidir.
Fundador da UFEM Engenheiro de produção Autor Professor