O delírio coletivo da AI FIRST
Transformar tudo em IA não é estratégia. É distração. O erro está em achar que um bot sozinho roda 100% da operação.
Hoje eu vejo muita gente indo na mesma direção: demitir o humano e plugar um robô no lugar. Eu opero ao contrário. Invisto pesado em IA e treino o time para usar e revisar essa IA. Tem funcionado, e os números, mais a própria Meta, começam a me dar razão.
A modinha que custa caro
A pressa de virar AI FIRST cobra um preço que não aparece na planilha do mês seguinte. Quase sempre por três motivos:
- Promessas fáceisA IA virou modismo. Soluções mágicas são vendidas como atalhos para resultados que ninguém entrega.
- Foco perdidoEmpresas se perdem em testes e ferramentas, enquanto o que de fato importa fica para depois.
- Gente esquecidaTecnologia sem pessoas preparadas é só mais um projeto caro que não sai do papel.
Onde a IA substitui de verdade, e onde quebra
Não é torcer o nariz para a máquina nem se ajoelhar para ela. É saber onde fica a fronteira. De um lado, a IA é imbatível. Do outro, ela trava. O maior erro do AI FIRST é jogar o bot para o lado errado dessa linha.
A IA assume bem
Volume, repetição, rascunho, triagem, resposta padrão e organizar dados.
A IA ainda quebra
Exceção, julgamento, contexto do cliente, confiança e decisão com risco real.
A IA substitui quem trabalha mal
Tem uma verdade incômoda aqui, e eu não vou fugir dela: a IA substitui gente, sim. Só que não é quem você imagina. Ela não ameaça quem trabalha bem. Ameaça quem entregava o mínimo, copiava e colava, fazia tudo no automático. Quem já trabalhava como um robô perde para o robô. O bom profissional, que usa julgamento e cuidado, fica mais valioso.
Você não vai perder o emprego para a IA. Vai perder para alguém que usa IA.
Jensen Huang, presidente da NVIDIA
E o mercado já anda nessa direção. Numa pesquisa com executivos, 60% disseram que consideram cortar quem se recusa a adotar IA, e quem usa a ferramenta teve três vezes mais chance de ser promovido no último ano. Não é a tecnologia punindo alguém. É que o trabalho sem esforço, aquele que a máquina faz igual, perdeu o valor.
O que se perde quando o bot assume 100%
Cortar o humano não é só apertar um botão e economizar um salário. Junto com a pessoa, saem coisas que não cabem em relatório:
- Conhecimento que ninguém documentouO histórico do cliente e o porquê de cada decisão saem com quem foi embora.
- Qualidade e confiançaO cliente sente quando fala com um script. A eficiência sobe no painel, a satisfação cai no mundo real.
- O custo escondido do retrabalhoErro para refazer, cliente que reclama, gente recontratada às pressas. A economia volta como conta.
O boomerang: 2 em 3 já recontrataram
E não para por aí. Foram cerca de 55 mil cortes atribuídos diretamente à IA em 2025 nos Estados Unidos (Challenger, Gray e Christmas). Entre as empresas do S&P 500 que demitiram por IA, 56% ficaram com a ação no vermelho (CNBC). E 1 em cada 3 gastou mais recontratando do que tinha economizado ao demitir.
Quem já voltou atrás
- Meta. Em memorando interno de junho de 2026, revisado pela Reuters, Zuckerberg admitiu: "cometemos erros e quase certamente cometeremos mais". A empresa demitiu cerca de 8 mil pessoas e afetou perto de 20% do quadro.
- Um banco inteiro. O Commonwealth Bank, da Austrália, trocou 45 atendentes por um robô de voz, viu as filas explodirem, admitiu o "erro", pediu desculpas e recontratou.
- Klarna. A fintech trocou cerca de 700 atendentes por um chatbot. O CEO reconheceu: "fomos longe demais, focamos em eficiência e custo".
- E o caso que parece piada. Um desenvolvedor demitiu o time inteiro de programadores por IA e, poucos dias depois, já anunciava vaga para programador experiente.
O que aconteceu quando eu fiz o inverso
Numa das minhas empresas, eu fiz o oposto do que o mercado estava fazendo. Em vez de demitir e plugar um bot, investi em IA e no desenvolvimento de ferramentas próprias. E mantive o humano onde ele faz diferença.
O humano continuou lá o tempo todo: operando, conferindo, lapidando o que a IA entrega. Não foi a máquina sozinha. Foi a máquina multiplicando gente boa que sabe o que está fazendo. Essa é a parte que a modinha do AI FIRST não conta: quando a IA multiplica o humano, em vez de substituí-lo, o teto sobe junto.
Como fazer certo
Não é antitecnologia. É colocar cada um no seu lugar. Funciona assim, na ordem:
- Invisto em IA e em ferramenta própriaa certa para o problema certo, muitas vezes sob medida.
- Treino o time para usarquem usa bem manda na máquina, e não o contrário.
- Coloco o humano para revisar e lapidara IA propõe, a pessoa decide antes de chegar ao cliente.
- Meço qualidade, não só velocidadeo sinal de saúde é rapidez subindo com qualidade firme.